Nada é mais avançado que um básico bem executado! Em Tê Rex: Sonhorama, com roteiros de Marcel Ibaldo e arte de Marcelli Ibaldo temos tiras muito, mas muito bem executadas mesmo! Bem executadas, divertidas, inteligentes e para todas as idades! Isso forma público novo. As tiras já foram publicadas no blog da Tê Rex, que está com tiras mais novas neste momento. Editada em livro pela Avec Editora. Preço: R$ 39,90 (mais o eventual frete).
As tiras contam as aventuras de Teresa Rex, ou Tê Rex para os amigos, ou Tê para os muito amigos, uma tiranossaura rex nerd que vive em meio ao mundo nerd da pré-história. Esta valente dinossaura adolescente encara todos os perigos da pré-história nerd sem medo, mas novos desafios surgem, alguns bem piores que os terríveis spoilers.
Neste quarto volume vemos Tê e seu irmãozinho Téo as voltas com novos desafios. Agressões grosseiras travestidas de opiniões e piadas; um pai faz tudo (que não faz nada direito); as aventuras do Pteroman, um herói com o qual ninguém gostaria de se identificar e o dia em que Bito fugiu de casa, será que Tê, sua família e seus amigos conseguirão encontrar o simpático trilobita?
Sempre temos tiras que retratam o aumento da pilha de leitura, as estantes que lotam rápido e as promoções imperdíveis que quebram as tentativas de só comprar coisas novas depois de vencida a pilha de leitura. Neste volume, isso não é diferente, as reflexões sobre o modo como consumimos quadrinho e cultura pop em geral continuam lá, com destaque para a tiras das páginas 17, 19, 70 e 71, estas últimas dedicadas ao Patric.
Mas nesse livro, os arcos de tiras com temáticas mais específicas foram ainda mais explícitos que nos volumes anteriores. A primeira série fala sobre agressões travestidas como opiniões e piadas e o quanto elas agridem e machucam, com destaque para a tira da página 11, a mais contundente. A segunda série mais longa foi a do pai que conserta tudo, mas de forma malfeita, de modo que as boas intenções se perdem nas péssimas execuções e isso garante boas gargalhadas.
A sequência do Pteroman, páginas 56 até 69, mostra a ingrata luta de um super-herói contra os boletos, juros de cartões de créditos e o modo como o consumo também nos consome. Um herói que mostra que querer se identificar com o herói não é a mesma coisa que querer se projetar no herói, ninguém vai querer se projetar no Pteroman, todos se identificarão a contragosto com ele. Por isso mesmo, essa foi a maior sacada dessa edição. Por fim, outra grande sequencia é a da fuga do Bito, que vai da página 83 até a 103, fechando as tiras do livro antes da Galeria de Convidados.
Estas quatro sequências de tiras bem explícitas me motivaram a fazer perguntas sobre o futuro da série e fui autorizado a publicar estas perguntas e respostas aqui! Então, antes de concluir essa resenha, fique como uma mini entrevista com Marcel Ibaldo no Instagram:
Blog do Juvenal...- Nos livros anteriores, sempre houve uma série, no primeiro foi o Planeta Dusumano, o segundo o Zap Zombie, a Tê maratonando séries, o terceiro o jovem Téo, literalmente, devorando os livros da Tê, mas era uma série por livro. Neste tiveram as sequências agressividade e preconceito travestidas de opiniões e piadas; o pai faz tudo (mal feito); o Pteroman e a fuga do Bito. A série vai ter mais histórias maiores? Está havendo uma transição das tiras para revistas ou álbuns?
Marcel Ibaldo - Eu organizo todos os livros com uma quantidade de arcos em cada um.
Marcel Ibaldo - Alguns são menos perceptíveis, mas sempre estão lá.
Marcel Ibaldo - O Spoilerfobia é que tem menos desse formato porque estávamos ainda testando, e na época nem pensávamos em reunir tudo em um livro.
Marcel Ibaldo - De todo modo, apesar de o arco do Planeta Duzumano ser o mais marcante, também tem um arco da ida à comic shop.
Marcel Ibaldo - No Zapzombie que essa estrutura em arcos passa a ser já planejada com mais antecedência.
Marcel Ibaldo - Nele, apesar de o título do livro apontar pra questão das séries/zumbis, o arco mais marcante pra mim é o flashback da infância da Tê, e todo o contexto e consequências que ele traz pra série até hoje (e pra sempre).
Marcel Ibaldo - No Livrofagia além do arco da chegada do Téo, que é o maior e engloba inclusive a chegada do Bito e outras questões, também existe um arco menor do Spoiler Solidário e ao final o arco da montanha (que eu gosto muito).
Marcel Ibaldo - Então sempre quando eu vou organizar a sugestão de ordem de tiras no livro e quais estarão nessa edição ou em uma próxima, organiza pastas com os arcos disponíveis e as tiras que não fazem parte de arcos, mas que funcionam conectando eles, dando coerência narrativa e evidenciando o amadurecimento dos personagens.
Marcel Ibaldo - O Sonhorama, na verdade, apesar de ter mais desses aspectos bem evidentes, ainda é sobre uma fase da vida dos personagens, do mesmo modo que os outros eram. Então, tudo se conecta e tem um sentido maior ao fim da leitura, e isso é uma regra pessoal minha na criação das tiras: que elas funcionem individualmente sempre que possível (afinal são antes publicadas uma a uma nas redes sociais), mas também funcionem em um nível mais profundo na leitura em sequência quando o livro é lançado.
Blog do Juvenal… - Mas vocês pensam em abandonar o formato tira isolada?
Marcel Ibaldo - Não.
Marcel Ibaldo - O Téo Rex: Ronin é um exercício nesse território da narrativa longa que é algo que a gente pretendia realizar há tempos. Foi muito legal e pretendemos revisitar o formato sempre que possível.
Marcel Ibaldo - Mas a Tê Rex é uma série de tiras e não temos planos de mudar. Só que no livro elas passam a fazer parte de um todo maior e mais complexo.
Observação: Téo Rex Ronin é uma edição especial, que expande o Tê Rexverso para novas possibilidades, a resenha desta edição em formatinho e com uma única história fechada estará aqui no futuro.
Mencionei que no primeiro livro, eu havia encarado cada tira da comic shop como um dia diferente. Obtive a seguinte resposta:
Marcel Ibaldo - Eu costumo dizer que o leitor completa a obra conforme sua própria percepção. Então tudo bem. Mas ali na ida pra comic shop é tudo mais sequencial, mesmo.
Vamos a última pergunta:
Blog do Juvenal… - Como a Marcelli interfere nos roteiros? Pelos créditos, ela desenha, mas dá pra ver que há duas vozes ali.
Marcel Ibaldo - “A gente conversa bastante e ambos palpitam no trabalho do outro.”
Marcel Ibaldo -Mas ainda é bem dividido. Porém, a outra "voz" que tu talvez perceba talvez seja pelo fato de a Tê Rex ser tão definida quanto a quem é que influência diferente em cada frase.
Marcel Ibaldo - A gente percebe isso e se algo escrito estiver em desacordo com a personalidade dela, na hora a gente veta.
Concluindo esta resenha, de Sonhorama, também podemos destacar a adaptação pré-histórica nerd do conto O Corvo de Edgar Allan Poe. Bom, para os que quiserem experimentar as tiras antes de adquirir o(s) livro(s), o blog da Tê Rex está logo ali a um Google de distância. Marcel Ibaldo já publicou, entre outros títulos, The Hype em parceria com Max Andrade e que rendeu um troféu HQ Mix. Marcelli é a desenhista, também tem trabalhos anteriores ao primeiro livro da Tê, como Closed Window. Tê Rex já foi premiada com o troféu Gibifest e foi tema de um artigo no volume 3 de Artigos, Relatos e Cartas.
Os extras são: um prefácio de Sâmela Hidalgo; a Tê Rex pelo traço de vários artistas consagrados dos quadrinhos nacionais, a minha preferida dessa vez foi a do Fred Rubim (As Três Sepulturas em parceria com Fábio Yabu). O livro tem lombada quadrada, 120 páginas em cores e, principalmente, muitas risadas! Agora, só me resta chover no molhado: a dupla de autores só melhora ao longo do tempo e das novas histórias!
Boas leituras!
Rodrigo Rosas Campos

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