sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

[Resenha] Tê Rex: Sonhorama, o Quarto Volume Impresso das Melhores Tiras da Internet

Fortemente aconselhável para todas as idades!


    Nada é mais avançado que um básico bem executado! Em Tê Rex: Sonhorama, com roteiros de Marcel Ibaldo e arte de Marcelli Ibaldo temos tiras muito, mas muito bem executadas mesmo! Bem executadas, divertidas, inteligentes e para todas as idades! Isso forma público novo. As tiras já foram publicadas no blog da Tê Rex, que está com tiras mais novas neste momento. Editada em livro pela Avec Editora. Preço: R$ 39,90 (mais o eventual frete).

    As tiras contam as aventuras de Teresa Rex, ou Tê Rex para os amigos, ou Tê para os muito amigos, uma tiranossaura rex nerd que vive em meio ao mundo nerd da pré-história. Esta valente dinossaura adolescente encara todos os perigos da pré-história nerd sem medo, mas novos desafios surgem, alguns bem piores que os terríveis spoilers.

    Neste quarto volume vemos Tê e seu irmãozinho Téo as voltas com novos desafios. Agressões grosseiras travestidas de opiniões e piadas; um pai faz tudo (que não faz nada direito); as aventuras do Pteroman, um herói com o qual ninguém gostaria de se identificar e o dia em que Bito fugiu de casa, será que Tê, sua família e seus amigos conseguirão encontrar o simpático trilobita?

    Sempre temos tiras que retratam o aumento da pilha de leitura, as estantes que lotam rápido e as promoções imperdíveis que quebram as tentativas de só comprar coisas novas depois de vencida a pilha de leitura. Neste volume, isso não é diferente, as reflexões sobre o modo como consumimos quadrinho e cultura pop em geral continuam lá, com destaque para a tiras das páginas 17, 19, 70 e 71, estas últimas dedicadas ao Patric.

    Mas nesse livro, os arcos de tiras com temáticas mais específicas foram ainda mais explícitos que nos volumes anteriores. A primeira série fala sobre agressões travestidas como opiniões e piadas e o quanto elas agridem e machucam, com destaque para a tira da página 11, a mais contundente. A segunda série mais longa foi a do pai que conserta tudo, mas de forma malfeita, de modo que as boas intenções se perdem nas péssimas execuções e isso garante boas gargalhadas.

    A sequência do Pteroman, páginas 56 até 69, mostra a ingrata luta de um super-herói contra os boletos, juros de cartões de créditos e o modo como o consumo também nos consome. Um herói que mostra que querer se identificar com o herói não é a mesma coisa que querer se projetar no herói, ninguém vai querer se projetar no Pteroman, todos se identificarão a contragosto com ele. Por isso mesmo, essa foi a maior sacada dessa edição. Por fim, outra grande sequencia é a da fuga do Bito, que vai da página 83 até a 103, fechando as tiras do livro antes da Galeria de Convidados.

    Estas quatro sequências de tiras bem explícitas me motivaram a fazer perguntas sobre o futuro da série e fui autorizado a publicar estas perguntas e respostas aqui! Então, antes de concluir essa resenha, fique como uma mini entrevista com Marcel Ibaldo no Instagram:

    Blog do Juvenal...- Nos livros anteriores, sempre houve uma série, no primeiro foi o Planeta Dusumano, o segundo o Zap Zombie, a Tê maratonando séries, o terceiro o jovem Téo, literalmente, devorando os livros da Tê, mas era uma série por livro. Neste tiveram as sequências agressividade e preconceito travestidas de opiniões e piadas; o pai faz tudo (mal feito); o Pteroman e a fuga do Bito. A série vai ter mais histórias maiores? Está havendo uma transição das tiras para revistas ou álbuns?

    Marcel Ibaldo - Eu organizo todos os livros com uma quantidade de arcos em cada um.
    Marcel Ibaldo - Alguns são menos perceptíveis, mas sempre estão lá.
    Marcel Ibaldo - O Spoilerfobia é que tem menos desse formato porque estávamos ainda testando, e na época nem pensávamos em reunir tudo em um livro.
    Marcel Ibaldo - De todo modo, apesar de o arco do Planeta Duzumano ser o mais marcante, também tem um arco da ida à comic shop.
    Marcel Ibaldo - No Zapzombie que essa estrutura em arcos passa a ser já planejada com mais antecedência.
    Marcel Ibaldo - Nele, apesar de o título do livro apontar pra questão das séries/zumbis, o arco mais marcante pra mim é o flashback da infância da Tê, e todo o contexto e consequências que ele traz pra série até hoje (e pra sempre).
    Marcel Ibaldo - No Livrofagia além do arco da chegada do Téo, que é o maior e engloba inclusive a chegada do Bito e outras questões, também existe um arco menor do Spoiler Solidário e ao final o arco da montanha (que eu gosto muito).
    Marcel Ibaldo - Então sempre quando eu vou organizar a sugestão de ordem de tiras no livro e quais estarão nessa edição ou em uma próxima, organiza pastas com os arcos disponíveis e as tiras que não fazem parte de arcos, mas que funcionam conectando eles, dando coerência narrativa e evidenciando o amadurecimento dos personagens.
    Marcel Ibaldo - O Sonhorama, na verdade, apesar de ter mais desses aspectos bem evidentes, ainda é sobre uma fase da vida dos personagens, do mesmo modo que os outros eram. Então, tudo se conecta e tem um sentido maior ao fim da leitura, e isso é uma regra pessoal minha na criação das tiras: que elas funcionem individualmente sempre que possível (afinal são antes publicadas uma a uma nas redes sociais), mas também funcionem em um nível mais profundo na leitura em sequência quando o livro é lançado.

    Blog do Juvenal… - Mas vocês pensam em abandonar o formato tira isolada?

    Marcel Ibaldo - Não.
    Marcel Ibaldo - O Téo Rex: Ronin é um exercício nesse território da narrativa longa que é algo que a gente pretendia realizar há tempos. Foi muito legal e pretendemos revisitar o formato sempre que possível.
    Marcel Ibaldo - Mas a Tê Rex é uma série de tiras e não temos planos de mudar. Só que no livro elas passam a fazer parte de um todo maior e mais complexo.

    Observação: Téo Rex Ronin é uma edição especial, que expande o Tê Rexverso para novas possibilidades, a resenha desta edição em formatinho e com uma única história fechada estará aqui no futuro.

    Mencionei que no primeiro livro, eu havia encarado cada tira da comic shop como um dia diferente. Obtive a seguinte resposta:

    Marcel Ibaldo - Eu costumo dizer que o leitor completa a obra conforme sua própria percepção. Então tudo bem. Mas ali na ida pra comic shop é tudo mais sequencial, mesmo.

    Vamos a última pergunta:

    Blog do Juvenal… -  Como a Marcelli interfere nos roteiros? Pelos créditos, ela desenha, mas dá pra ver que há duas vozes ali.

    Marcel Ibaldo - “A gente conversa bastante e ambos palpitam no trabalho do outro.”
    Marcel Ibaldo -Mas ainda é bem dividido. Porém, a outra "voz" que tu talvez perceba talvez seja pelo fato de a Tê Rex ser tão definida quanto a quem é que influência diferente em cada frase.
    Marcel Ibaldo - A gente percebe isso e se algo escrito estiver em desacordo com a personalidade dela, na hora a gente veta.

    Concluindo esta resenha, de Sonhorama, também podemos destacar a adaptação pré-histórica nerd do conto O Corvo de Edgar Allan Poe. Bom, para os que quiserem experimentar as tiras antes de adquirir o(s) livro(s), o blog da Tê Rex está logo ali a um Google de distância. Marcel Ibaldo já publicou, entre outros títulos, The Hype em parceria com Max Andrade e que rendeu um troféu HQ Mix. Marcelli é a desenhista, também tem trabalhos anteriores ao primeiro livro da Tê, como Closed Window. Tê Rex já foi premiada com o troféu Gibifest e foi tema de um artigo no volume 3 de Artigos, Relatos e Cartas.

    Os extras são: um prefácio de Sâmela Hidalgo; a Tê Rex pelo traço de vários artistas consagrados dos quadrinhos nacionais, a minha preferida dessa vez foi a do Fred Rubim (As Três Sepulturas em parceria com Fábio Yabu). O livro tem lombada quadrada, 120 páginas em cores e, principalmente, muitas risadas! Agora, só me resta chover no molhado: a dupla de autores só melhora ao longo do tempo e das novas histórias!

Boas leituras!

Rodrigo Rosas Campos


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

[Resenha] Ato 5 de André Diniz e José Aguiar


    Gabriel é um dramaturgo, ator, diretor e dono da Companhia Vanguarda Teatral, Lorena é aluna de Gabriel e a melhor atriz da companhia e Juan é aluno de Gabriel e o melhor ator da companhia. Eles faziam grande sucesso, até que a ditadura militar resolveu censurá-los, mas antes do Ato Institucional Número 5, o A.I.5, eles tiveram seu teatro incendiado. Depois do A.I.5, a peça de maior sucesso da Companhia até então foi proibida e Gabriel se refugiou numa chácara antes deles partirem para o exílio na Itália.

    Foi no refúgio em sua chácara que Gabriel escreveu a peça Remédio Amargo que teve de ser dirigida por Juan e interpretada por Lorena. Mas em meio a ditadura militar e aos anos de chumbo a vida normal seguia. Lorena já tivera um caso com Gabriel e ela e Juan eram melhores amigos. Depois que a equipe do teatro fora espancada por agentes da ditadura, a Companhia toda saiu do Brasil em exílio e encenaram a peça proibida na Itália em plena copa do mundo de 1970.

    A história é contada em parte pela perspectiva de Juan e em parte pela perspectiva de Lorena. Gabriel, o personagem que une os narradores é apenas descrito por eles, que, apesar de o retratarem de forma brilhante e severa ao mesmo tempo, admitem não conhecê-lo plenamente. Lorena comenta inclusive o quanto os jornais de fofoca inventaram sobre ela e o quanto as histórias de Gabriel que ela não vivenciou são questionáveis.

    A perseguição política na vida de atores e as marcas deixadas por essa perseguição são mostradas de forma exemplar. Ato 5 tem texto de André Diniz e desenhos de José Aguiar. Os desenhos são lindos e o texto mostra que o escritor conviveu e ouviu histórias de sobreviventes da ditadura para compor essa ficção histórica. Ou, no mínimo, é de se supor, que André Diniz leu muitos relatos de sobreviventes sobre a época.

    A atual edição é da editora Conrad, da coleção HQ Para Todos, publicada em 2024, R$ 14,90 em uma livraria física. A história foi terminada em 2003, só foi publicada originalmente em 2009 no selo Quadrinhofilia com o apoio da Itiban Comic Shop e do coletivo Quarto Mundo. Ato 5 é uma história que retrata um tempo de ditadura militar no Brasil que não pode ser ignorado, esquecido ou atenuado, afinal, temos que lutar ativamente para não repetirmos os erros passados e não perder a democracia conquistada a base de muito sofrimento, dor e mortes. Temos que lutar, votar e cobrar dos eleitos do legislativo e do executivo pela manutenção da democracia, expansão de direitos, garantias de exercícios de direitos e para que o pior da história não se repita jamais. Deixem seus comentários com carinho e educação, pois eles serão lidos com carinho e educação. Boas leituras.

Rodrigo Rosas Campos 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Garimpando No Evento Agáquês!: As Aventuras de Calvin & Haroldo, Deu “Tilt” no Progresso Científico por Bill Watterson


     O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Por esse motivo, os eventos de quadrinhos no Brasil, por menores que sejam, precisam ser estimulados e divulgados. São momentos em que leitores e criadores de quadrinhos (escritores e desenhistas) podem interagir sem intermediários. A série “Garimpando No Evento...” fala de quadrinhos que foram comprados diretamente com os criativos nos eventos. Uma vez me perguntaram como ficar sabendo desses eventos, simples: acompanhem e sigam seus autores e suas editoras preferidos nas redes sociais. Mas, nesse evento específico, só comprei 3 quadrinhos usados mesmo. Orçamento baixo, fiz o que pude, desculpe se foi pouco.

    A pedra garimpada de hoje é As Aventuras de Calvin & Haroldo, Deu “Tilt” no Progresso Científico por Bill Watterson, publicada no Brasil pela Conrad em 2009 e foi garimpada no evento Agáquês, em 1 de fevereiro de 2026, Botafogo, Rio de Janeiro, ao preço de R$ 25,00. Como vemos pela capa, as tiras que fazem a sequência do título específico do volume são as do Calvin as voltas com suas cópias produzidas pelo duplicador, mas não antecipemos os sucessos.

    Antes de mais nada, como nada é perfeito, as tiras dominicais estão em preto e branco, não coloridas e a tradutora da Conrad, na última tira, insistiu em chamar um famoso dinossauro carnívoro de halossauro, quando halossauros nem eram carnívoros e a imagem é de um tiranossauro. Enfim, vamos ao livro.

    A história que dá título ao volume é uma sequência em que Calvin inventa um duplicador e suas cópias causam grandes confusões. É claro que só o Calvin vê suas cópias, assim como o Haroldo só tem vida pelo olhar do Calvin. Temos outras tiras em que Calvin se vê como o Estupendoman, o astronauta Spiff, o Calvinsauro e ele atormentando a babá quando os pais resolvem sair juntos sem ele. Outro destaque desse livro é a saga de Calvin jogando baseball, destaque para a tira 1 da página 101, o dia em que Calvin caiu pra cima e tantas outras. Pena que não podemos comentar tira a tira sem dar spoilers. Uns dirão que Calvin é divertido para crianças e uma história de terror para adultos, em ambos os casos, as tramas são hilárias, tirem suas próprias conclusões.

    Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “garimpando” e clique no botão “pesquisar”. Assim, você verá tanto os outros garimpos de eventos como o “Garimpando em Gibiterias”.

    Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Garimpando No Evento Agáquês!: As Aventuras de Calvin & Haroldo, A Hora da Vingança por Bill Watterson


     O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Por esse motivo, os eventos de quadrinhos no Brasil, por menores que sejam, precisam ser estimulados e divulgados. São momentos em que leitores e criadores de quadrinhos (escritores e desenhistas) podem interagir sem intermediários. A série “Garimpando No Evento...” fala de quadrinhos que foram comprados diretamente com os criativos nos eventos. Uma vez me perguntaram como ficar sabendo desses eventos, simples: acompanhem e sigam seus autores e suas editoras preferidos nas redes sociais. Mas, nesse evento específico, só comprei 3 quadrinhos usados mesmo. Orçamento baixo, fiz o que pude, desculpe se foi pouco.

    A pedra garimpada de hoje é As Aventuras de Calvin & Haroldo, A Hora da Vingança por Bill Watterson, publicada no Brasil pela Conrad em 2009 e foi garimpada no evento Agáquês, em 1 de fevereiro de 2026, Botafogo, Rio de Janeiro, ao preço de R$ 25,00. Como vemos pela capa, as tiras que fazem a sequência do título específico do volume são do Calvin as voltas com a babá Rosalyn, uma das vítimas do nosso adorável pestinha e de seu tigre de pelúcia Haroldo que é vivo na imaginação do Calvin.

    É claro que o volume traz tiras com outras temáticas, o fascínio de Calvin pelos dinossauros, e T-rex não é halossauro, houve um erro de tradução grotesco, mas que também é uma falha grotesca de revisão tendo em vista a biologia e as imagens das espécies na ilustração, mas, pelo menos, esse erro foi corrigido no volume seguinte (cuja resenha será em um outro post futuro).

    As aventuras do Estupendo-man; a tradutora podia ter respeitado e mantido essa tradução superior do jornal O Globo, que originalmente publicou Calvin no Brasil; enfim, as falhas da edição não são culpa do autor mas da equipe da Conrad, inclusive a ausência de cores nas tiras dominicais, bom trabalho senhor editor. Espero que edições posteriores sejam melhores, que os erros sejam corrigidos e, de preferência, que a publicação encontre uma editora que a trate melhor, com mais cuidado e carinho, no futuro.

    Enfim, apesar da Conrad e de sua equipe, ainda assim Watterson nos apresenta histórias hilárias e emocionantes, destaque para a tira do dia das mães, página 84. As férias no campo, a ida a um casamento e a volta em que a família de Calvin descobre que a casa foi invadida e roubada durante a viagem são momentos em que o autor alterna humor e ternura a partir de um tema caro a todos nós, a segurança pública. Calvin & Haroldo é um clássico que deveria estar em catálogo permanente completo no Brasil e em todos os países do mundo. Enfim, leiam Calvin e relevem os erros dos eventuais editores e suas respectivas equipes, nem eles conseguem estragar o brilhantismo de Bill Watterson. Uns dirão que Calvin é divertido para crianças e uma história de terror para adultos, nos dois casos, as tramas são hilárias, tirem suas próprias conclusões.

    Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “garimpando” e clique no botão “pesquisar”. Assim, você verá tanto os outros garimpos de eventos como o “Garimpando em Gibiterias”.

    Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


domingo, 8 de fevereiro de 2026

[Matéria] Evento Agáquês!


    O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Por esse motivo, os eventos de quadrinhos no Brasil, por menores que sejam, precisam ser estimulados e divulgados. São momentos em que leitores e criadores de quadrinhos (escritores e desenhistas) podem interagir sem intermediários.

    Prestigiar os pequenos eventos de quadrinhos na sua cidade é também uma questão de economia. Sou daqui do Rio de Janeiro e há vários pequenos eventos de quadrinhos aqui. Sigam as redes sociais de seus autores e editoras independentes preferidos para saber quando e onde haverá um evento.

    Nesta edição do evento Agáquês, foi o evento em que menos gastei. A entrada foi franca (de grátis, na faixa), duas passagens de Metrô, almoço, petisco e lanche (que eu também conto), 3 quadrinhos usados, a camiseta oficial para ajudar o evento e uma arte original na camiseta por Johandson Rezende.

    Bons eventos e boas leituras!



    Rodrigo Rosas Campos

 



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Garimpando Em Gibiterias: A Volta do Fradim de Henfil: Uma Antologia Histórica


     O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal como livros clássicos. Os editores de quadrinhos nacionais são bem imediatistas e até mesmo obras como Graúna, Watchmen, Piratas do Tietê e Maus ficam difíceis de encontrar de tempos em tempos. A série “Garimpando em Gibiterias” fala de quadrinhos que valem a pena “garimpar” em gibiterias, sebos, estoques antigos de livrarias virtuais, feiras de livros e, se a grana estiver muito curta, em bibliotecas públicas. Sim, existem quadrinhos em bibliotecas públicas, é só procurar.

    A pedra garimpada de hoje é A Volta do Fradim: Uma Antologia Histórica de Henfil, publicado pela Geração Editorial em 2003, formato livro, foi R$ 10,00 em uma feira do livro.

    Na época da ditadura militar, a religião católica era a oficial do Brasil, Fradim é a série de tiras de Henfil que satirizou, com muita acidez, esse período, mostrando uma dupla de frades politicamente incorretos (principalmente para os padrões de hoje) que espelhavam o modo de pensar e agir dos cidadãos de bem, tementes a Deus na época.

    Estes dois frades viviam as turras entre eles e contra a vizinhança, principalmente entre os muito diferentes. O livro da Geração Editorial resgata parte dessas tiras. São quadrinhos divertidos que nos fazem pensar sobre religião, poder e como é bom viver em uma democracia com liberdade de culto para todos sob um estado laico e sem religião oficial.

    Se Henfil ainda fosse vivo, muito provavelmente os fradinhos de antigamente teriam sido substituídos por pastorezinhos hoje, mas infelizmente, muitos dos problemas retratados nas tiras da série Fradim da época se mostram bem atuais. Nossa sociedade ainda é permeada por desigualdade, racismo, violência policial, influências religiosas em questões de estado, repressão sexual de toda ordem, miséria, fome entre outros problemas graves que se perpetuam desde a ditadura militar. Sim, o que tivemos foi uma ditadura militar.

    Não se enganem com os desenhos fofos e com o humor ácido, Fradim não é uma obra leve, seus temas são pesados, mas é uma obra essencial para evidenciar muitos dos erros e feridas que a sociedade brasileira teima em perpetuar. Deixe seus comentários com carinho e educação, pois eles serão lidos com carinho e educação.

    Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “Garimpando em Gibiterias” e clique no botão “Pesquisar”. Ou digite apenas “garimpando” e encontrará títulos a mais em garimpos de eventos.


    Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Garimpando No Evento Agáques de Fevereiro de 2026: Spektro #01 da Ota Comix de 1994


+18 

    O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Por esse motivo, os eventos de quadrinhos no Brasil, por menores que sejam, precisam ser estimulados e divulgados. São momentos em que leitores e criadores de quadrinhos (escritores e desenhistas) podem interagir sem intermediários. A série “Garimpando No Evento...” fala de quadrinhos que foram comprados diretamente com os criativos nos eventos. Uma vez me perguntaram como ficar sabendo desses eventos, simples: acompanhem e sigam seus autores e suas editoras preferidos nas redes sociais.

    A pedra garimpada de hoje é Spektro #01 da Ota Comix de 1994 e foi garimpada no evento Agáques de Fevereiro de 2026 ao preço de R$ 20,00. Essa edição marca a retomada da revista Spektro pela editora Ota Comix, do saudoso Ota, em 1994 com capa de Ofeliano. Mas antes de falarmos das histórias na revista, vamos falar um pouco sobre essa edição. Publicada sob o selo Ota Comix, ela foi coeditada pela Editora Elipse e fez parte da F.R.I., Frente das Revistas Independentes.

    A edição conta com editorial bem resumido do Ota contando a história da Spektro original da editora Vecchi. Inicialmente, a revista publicava o personagem místico Doctor Spector da editora estadunidense Gold Key, e era este personagem que dava o título da revista. Aos poucos, para preencher os espaços, foram misturados materiais nacionais com os estrangeiros até a revista passar a ser 100% nacional. Mas a Vecchi fechou as portas e deixou saudades. A retomada do título se deu nesta edição de 1994. Não foi a única tentativa, mas não antecipemos os sucessos.

    Agora vamos as histórias. A história com destaque na capa de Ofeliano é Vampiro Eletrônico com textos do Ota e desenhos de Shimamoto. De alguma forma, o fantasma de Drácula passou a infectar computadores como se fosse um vírus. Agora, o vampiro eletrônico passa estranhas instruções para técnicos de informática, programadores e engenheiros eletrônicos através de hipnose e mensagens subliminares em todo mundo via Internet. Como o fantasma de Drácula pretende renascer a partir de computadores? Será somente mais um perigoso vírus? Será que Drácula voltará dos mortos a partir de equipamentos de eletrônica? Descubra lendo a história.

    RPG Sinistro tem roteiro de Ota e desenhos de Mozart Couto. Um novo RPG pouco conhecido no Brasil é mostrado em uma convenção por um garoto de poucos amigos; um grupo de adolescentes, já quase jovens adultos, aceita o convite do garoto para jogar esse jogo. A ambientação parece um tanto esquisita, mas eis que os jogadores se veem naquele mundo de jogo literalmente. Será verdade ou apenas a fantasia de um grupo de jogadores de RPG? Essa é uma história que tira sarro do pânico satânico que também chegou ao Brasil na década de 1990.

    Os Últimos Fregueses tem textos do Ota e arte de Colin. Um restaurante refinado, estranhamente barato, serve uma carne de excelente qualidade, mas sua equipe se recusa a dizer de onde vem essa carne. O que será que acontece quando frequentadores desse restaurante insistem em querer saber a procedência dessa carne? Descubra lendo.

    Gosma tem roteiro e arte de Elmano Silva. Planejada para ser uma série, narra a história de Gosma, uma criança geneticamente modificada, fruto de um experimento ilegal. Separado do cientista que manipulou seus genes, o garoto cresce em um bairro periférico apresentando mutações horrendas que lhe garantem o apelido de Gosma. Confesso que achei a história do Gosma apelativa e pouco criativa. Como já mencionei, é um primeiro capítulo e falar mais é dar spoilers.

    Quantas edições essa Spektro do selo Ota Comix teve? Segundo o Guia dos Quadrinhos, apenas uma, essa edição número 1 de 1994. E a série do Gosma? Segundo o próprio Guia dos Quadrinhos, a mesma história do Gosma foi republicada apenas no Terror Negro atual da Ink & Blood Comics em 2023. A mesma editora também publicou o Livro Negro do Spektro em 2015. De 2014 até 2017, Ota editou outra tentativa de trazer a Spektro de volta pela editora Cultura & Quadrinhos. Ou seja, se a série do Gosma chegou a terminar, só garimpando em gibiterias para descobrir. Pela editora Press, em 1985, houve apenas 3 edições da revista Spektros, com k e no plural, com a mesma proposta da Spektro original.

    Prestigiem os pequenos eventos de quadrinhos nas suas respectivas cidades. Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “garimpando” e clique no botão “pesquisar”. Assim, você verá tanto os outros garimpos de eventos como o “Garimpando em Gibiterias”. Esta edição do evento Agáques aconteceu em primeiro de fevereiro de 2026 em Botafogo, Rio de Janeiro.

    Boas leituras! E se puder, bons sonhos, hahahahaha!

    Rodrigo Rosas Campos


    P.S.: Nesse evento específico, só comprei 3 usados mesmo. Orçamento baixo, fiz o que pude, desculpe se foi pouco.

[Resenha] Tê Rex: Sonhorama, o Quarto Volume Impresso das Melhores Tiras da Internet

Fortemente aconselhável para todas as idades!     Nada é mais avançado que um básico bem executado! Em Tê Rex: Sonhorama, com roteiros de Ma...