quinta-feira, 10 de setembro de 2026

[Matéria] Super-heróis Made in Brazil, Sim, Eles Existem

Rodrigo Rosas Campos

Introdução

    Não entrarei no mérito acadêmico de que super-heróis são manifestações típicas dos EUA assim como o rock e o jazz mesmo quando feitos por não estadunidenses fora dos EUA. Essa é a mesma discussão sobre o rock brasileiro, o bang-bang italiano, o jazz fora dos EUA e o samba fora do Brasil.

    Essa discussão é linda quando envolve gente que consegue manter uma discussão civilizada, onde os participantes concordam em discordar se for o caso, e que conhecem o assunto de verdade, por livros e não por posts de redes sociais. Em todo o caso, o tema divide opiniões, mas não é o foco aqui. E nem quero comentários a respeito, quem quiser se polarizar que faça isso longe. Com quem eu sei que não discute tudo na base da torcida Fla x Flu, GreNal etc. eu falo isoladamente, de preferência presencialmente. O que importa aqui é que brasileiros escreveram, desenharam e publicaram super-heróis em território nacional. Sigamos a partir daqui:

Um Registro Histórico

    Sim, eles existem e em 2019, o Chiaroscuro Studios lançou o Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros reunindo informações sobre eles em 200 verbetes e 57 releituras gráficas. Em 2022, o arquivo em PDF foi liberado pelo site do Chiaroscuro Studios e serviu como primeira base para este ensaio, uma vez que é mais fácil escrever a partir de um documento que serve como ponto de partida e referência maior do que por informações esparsas, o Chiaroscuro Studios está de parabéns.

    E por que isto é um ensaio e não uma resenha simples? Bom, muita coisa desse livro eu já sabia e sei coisas que não estão nesse livro, mas que quero colocar aqui para complementar. Ou seja, estou usando e complementando as informações desse livro, não dando uma opinião sobre o texto e as releituras gráficas.

    Estes super-heróis nacionais são difíceis de achar. Afinal, muitos são personagens antigos com poucas publicações cada e tiragens bem pequenas. O próprio livro impresso Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros também está difícil de encontrar, pois foi feito por financiamento coletivo com uma tiragem bem reduzida em 2019. É claro que eu não comentei todos os 257 verbetes totais do Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros aqui, mas ao menos procurei dar alguma palhinha sobre alguns mais emblemáticos.

    O Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros possui texto e pesquisa de Franco de Rosa. O autor, além de profissional e pesquisador de quadrinhos, é, ele próprio, um dos criadores de alguns super-heróis brasileiros. Ou seja, o autor da pesquisa participou desse movimento de criação de super-heróis no Brasil. Seu personagem mais famoso é o Ultraboy. Apesar do sucesso do gibi, ele foi uma das muitas surfadas editoriais na onda do sucesso da série de TV japonesa Ultraman. Seguindo essa tendência, Ultrax é uma outra versão brasileira do Ultraman e, justiça seja feita, é a mais diferente de todas. Criado só em 1991 e publicado só em 2001, Ultrax é de Eloir Carlos Nickel.

Muitos São Só Cópias, Sejamos Honestos

    O Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros impresso teve acabamento de luxo, foi lançado por financiamento coletivo na plataforma Catarse e foi caro no seu lançamento. Principalmente se os leitores repararem que muitos desses super-heróis brasileiros lá catalogados não passam de meras cópias oportunistas dos gringos. Isso é fato e contra fatos não há argumentos.

    Assim, Raio Negro é só um Lanterna Verde genérico com o anel de luz negra, antes da luz negra virar modinha; Bola de Fogo é uma cópia brasileira do Tocha-Humana original com uma origem alienígena para não dar muito na vista; Alma de Aço é só mais um robô militar que ganha consciência própria; Audaz, o Demolidor, é só mais um mecha, robô gigante tripulado, anterior as séries japonesas, mas feito com base numa série mexicana que se inspirava em pulps de ficção científica norte-americanos; Fantastic é só um agente secreto que usa um traje no melhor estilo Homem de Ferro; Hydroman é só mais um plágio descarado do Namor; Místyko é uma cópia descarada do Senhor Destino (Doctor Fate) da distinta concorrente.

O Judoka, Cópia ou Substituto Nacional?

    E se o editor brasileiro não pode usar mais um personagem licenciado de fora, ele encomenda um equivalente nacional. O Judoka é um vigilante que luta judô. Criado para ser o substituto nacional do Mestre Judoka, da Chalton, quando este deixou de ser publicado aqui no Brasil pela EBAL (e isso é uma longa história que não cabe aqui). Com o tempo, o Judoka ganha uma parceira, a Judoka. Apesar da criatividade para nomes, a série foi um dos maiores sucessos de super-heróis em quadrinhos no Brasil. Com efeito, nossos Judokas eram brasileiros, com histórias 100% novas e ambientadas no nosso país. Os nossos Judokas (ele e ela) foram criados por Monteiro Filho (artes) e Pedro Anísio (roteiros) em 1969. Essa é uma cópia com originalidade real que merece verdadeiros aplausos! Uma cópia que virou um novo original e o segredo foi uma história nova em uma ambientação nacional. Até hoje é um dos mais famosos títulos dos quadrinhos brasileiros. O Judoka chegou a ter filme, que foi perdido com o tempo.

Capitão 7, o Mais Famoso

    Até mesmo o mais famoso de todos, o Capitão 7, é uma mistura de Flash Gordon com Superman e foi feito como um programa de TV, virando, posteriormente, uma marca de uma famosa fábrica de fantasias para crianças, famosa sobretudo nas décadas de 1980 e 1990. Bom, seja como for, não tem como não falar um pouco mais deste que é o mais famosos de todos os super-heróis brasileiros. Criado para a TV, na antiga rede Record, canal 7, daí o número 7, onde ele era mais um cover do Flash Gordon. Quando transportado para os quadrinhos, virou uma mistura de Superman com Flash Gordon. Seus poderes estavam na roupa, armas e no treinamento que recebeu no Sétimo Planeta. Foi criado por Rubem Biáfora e pelo ator Ayres Campos, sendo que este ficou com os direitos do personagem e abriu a famosa fábrica de fantasias.

    A reimaginação de Eduardo Pansica (lápis e redesign), Júlio Ferreira (arte-final) e Márcio Menyz (cores) mudou a etnia do Capitão 7. Todavia cabe salientar, e isso não está no Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros, que em 1995, Darlei Nunez já havia criado e colocado um novo Capitão 7, afrodescendente, no grupo Comando Justiça como discípulo e sucessor do original em um fanzine (https://hqquadrinhos.blogspot.com/2010/02/capitao-7-by-darlei-nunez-brasil.html).

    Aqui, vale lembrar que, assim como o Capitão 7 começa como um programa de TV, Jerônimo, Flama e alguns outros começam como programas de Rádio, o que mostra que o Brasil tem como uma de suas especialidades as adaptações na contramão, indo no caminho oposto do que geralmente acontece: o normal seria literatura em prosa ou em quadrinhos sendo transportadas para mídias audiovisuais. O Flama é o vigilante criado por Deodato Borges em 1963. De todos os vigilantes brasileiros, ele é o que mais parece uma mistura do Spirit com o Batman.

    Seguindo o sucesso do Capitão 7, a fábrica de brinquedos Estrela criou seu próprio herói para a TV e para os quadrinhos. Em 1959 (indo para os quadrinhos em 1961) surgia o Capitão Estrela. Apesar de ser uma jogada de marketing, suas características sobre-humanas eram explicadas por mutação antes dos X-Men, que só seriam publicados nos EUA em 1963. Por conta de complicações por direitos, o Capitão Estrela nunca mais pôde ser republicado. Fica o registro de que o Capitão Estrela foi um precursor dos super-heróis mutantes e que foi do Brasil, e ele não foi o único precursor brasileiro em seu conceito.

Velta, a Mais Famosa e Outros Precursores Brasileiros

    Nem todos os super-heróis brasileiros foram meras cópias, alguns foram até precursores. Velta é, certamente, a mais famosa hoje. Criada por Emir Ribeiro, teve pouca repercussão em sua criação em fanzines, mas é de 1973, logo, é anterior a Mulher-Hulk da Marvel, além de não estar vinculada a nenhum personagem protagonista masculino anterior.

    O Patrulheiro Fantasma é de 1967, criado por Rubens Cordeiro, também é anterior ao Motoqueiro Fantasma da casa das ideias. Fikom, criado por Fernando Ikoma em 1967, é um personagem herói que transita pelos sonhos, criado muito antes do Sandman de Gaiman e chegou a ser publicado fora do Brasil.

    Garra Cinzenta é na verdade o megavilão da história que não é ambientada no Brasil. Sua iconografia antecede o vilão Caveira Vermelha e o super-herói americano pouco conhecido no Brasil, o Terror Negro. Garra Cinzenta foi criado em 1937 por Francisco Armond (roteiro) e Renato Silva (desenhos), sendo que há suspeitas em torno destes créditos, o que não vem ao caso agora.

    Golden Guitar é um super-herói baseado no sucesso da Jovem Guarda. Criado por Rivaldo A. Macedo, Rubens Cordeiro, A. Torres e Apa (Aparecido Benedito da Silva) em 1967. Sua arma é sua guitarra elétrica dourada modificada. É um precursor, anterior ao Zé da Guitarra (Punk Rock) do desenho animado norte-americano Escola de Heróis (Hero High) de 1981. Zodiako, um personagem cósmico de 1974 criado por Jayme Cortez. Apesar de sua história ter como base o zodíaco e a astrologia, em termos de escala de poder, é um precursor do Doutor Manhattan de Watchmen.

    Quebra Queixo não é bem um precursor, mas é o representante do cyberpunk mais famoso do Brasil nos quadrinhos. Criado em 1983 por Marcelo Campos, traz um futuro distópico tipicamente brasileiro. Um tapa na cara para quem esquece que há política até em histórias de super-heróis.

    Justiça seja feita, o próprio Capitão 7 tem elementos de inovação: uma criança é levada para outro planeta, recebe treinamento e conhecimentos superiores e uma roupa que amplia suas capacidades. Lembra algum super sentai japonês? Pois é, e o Capitão 7 é de 1954.

    Entretanto, apesar de alguns heróis precursores em temáticas e poderes, não podemos deixar de notar que a grande maioria não passou de cópias para tirar proveito de sucessos, tanto dos quadrinhos quanto de séries de TV estrangeiras. São muitas as cópias brasileiras de Tarzan (com versões femininas inclusive), Fantasma, Conan e, com já visto, até do Ultraman.

    Falando em covers do Fantasma, o primeiro Escorpião é a cópia brasileira mais famosa dele. Surge em 1966 por autoria de Wilson Fernandes. O Escorpião 2 foi uma releitura do primeiro, mais super e urbana, uma vez que o primeiro fora processado pela empresa que detinha os direitos de distribuição do Fantasma no Brasil. Outros personagens de selva são: o Morcego, este é baseado numa lenda real dos nativos da Amazônia. Criado para ser uma das muitas cópias do Fantasma, este ao menos se baseia numa lenda e se livra de processos. Foi criado por Wilson Fernandes em 1974; Morena Flor, mais uma entre muitas versões femininas de Tarzan, uma garota da selva típica. Foi criada por André Le Blanc (roteiro e desenhos) em 1947.

Sinais dos Tempos: Estes Seriam Inapropriados Para os Dias de Hoje

    Alguns dos super-heróis brasileiros são deveras problemáticos para nossos dias. Até mesmo suas republicações simples seriam bem problematizadas. Vamos a eles: o Gênio, ou o Gênio do Calhambeque, personagem criado sob encomenda na onda do “o petróleo é nosso.”. Surge para ser didático em relação ao petróleo e seus benefícios e vem de um escapamento de um calhambeque como se fosse um gênio típico das 1001 noites. Com a poluição do mundo de hoje, aquecimento global e a busca por matrizes energéticas limpas, duvido que seria publicado hoje.

    Outro herói que se tornou bem problemático foi o Homem-Fera. Seu visual lembra o Pantera Negra, seu nome o mutante Fera dos X-Men, mas não tem nada a ver com nenhum dos conceitos anteriores. Domador de circo, tem uma pantera-negra de estimação que combate o crime com ele. Eram tempos em que circos podiam ter animais selvagens nos números e que isso era normalizado. Não a toa, sua releitura no Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros segue um estilo anos 1990, pouco antes da lei que proibiu animais em circos no Brasil.

    Homem Justo, um vigilante com um cinto tecnológico alienígena que lhe dava superpoderes, tendo em vista a época de sua publicação original e as mudanças feitas em sua história, é muito provável que tenha tido problemas com a censura da ditadura na época. Vigilantes e espiões genéricos são sempre de gosto duvidoso por lembrarem milícias em geral e isso não dá para negar: Homem de Preto, Fantasma Negro, o Gato, Superargo entre outros.

Concluindo

    É fato que nossas eternas e crônicas crises econômicas atrapalham e até mesmo abortaram o desenvolvimento de séries maiores e que muitos personagens recorrentes foram interrompidos por isso. Mas não acredito que nenhum deles seria mantido em reboots eternos. Autores brasileiros de quadrinhos e a maioria dos leitores daqui não estão dispostos a assinar contratos vitalícios e muitos desses personagens só possuem algum apelo quando produzidos pelo(s) autor(es) original(nais).

    O fã típico de super-herói, que se apega ao personagem (a marca, ao selo editorial, universo compartilhado, cronologia etc.) mais do que as equipes criativas específicas (os profissionais que realmente fazem o personagem acontecer), é só uma minoria barulhenta, tanto aqui no Brasil, quanto nos EUA. Tanto é verdade, que esse público parou de se renovar e está literalmente fadado a morrer de velhice, como todos nós. Com efeito, hoje, o público de super-heróis é de cinema, séries de TV, videogames e RPGs. Um público que não exige que o novo ator de 007 refaça todos os filmes anteriores, um público mais disposto a aceitar diferenças em relação ao que veio antes.

    Fora que os quadrinhos brasileiros encontram mais espaço em sátiras (principalmente políticas), terror e infantil e isso vai das preferências e facilidades dos próprios autores brasileiros. Com efeito, a maioria dos super-heróis produzidos aqui são paródias. Entre essas paródias originais, um destaque especial vai para o Capitão Cipó de 1968 criado pelo saudoso Daniel Azulay, muito antes do Overman da Laerte.

    E esses personagens, super-heróis brasileiros, têm republicações? Sim, eles tem republicações, todas de forma independente ou por pequenas editoras, procure sobretudo as gibiterias virtuais; algumas dessas republicações saem pelo advento do financiamento coletivo no Brasil. Alguns deles têm publicações novas? Sim e com encontros até, também por financiamentos coletivos. A maioria dos encontros são de gosto duvidoso, bem verdade, baixe as expectativas, divirta-se e seja feliz. A saga dos super-heróis brasileiros continuou? Sim. Nos verbetes, o Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros tem personagens surgidos até no ano 2000 em diante. Há novos super-heróis brasileiros autorais surgindo até hoje, o tempo todo. Destaco As Empoderadas de Germana Viana de 2015; Esquadrão Vitória de Gico Galli em 2017 e 2020; e Dias de Horror de Danilo Beyruth e Chiaroscuro Studios em 2017. Com efeito, estas três histórias são só algumas das mais atuais e as melhores ao meu ver.

Para Saber Mais

    Adquiri uma versão em PDF do Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros em 19/05/2022 disponível no site da Chiaroscuro Studios. Não sei a empresa mantém a promoção do PDF grátis. Já a versão física do livro, infelizmente, você só o achará usado. Ele pode ser republicado fisicamente? Dificilmente, não alimente esperanças. Em todo caso, acompanhe a Chiaroscuro Studios tanto pelo site oficial, pelas redes sociais deles e pelo Catarse. Vai que ele seja republicado para ser uma recompensa futura; improvável, mas não impossível.


    ROSA, Franco de.  Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros.  São Paulo: Chiaroscuro Studios, 2019.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Resenha Compacta de Histórias Assustadoras Para Contar à Noite Com 10 Contos de Terror e do Horror

    Já fiz uma resenha completa desse livro comentando conto a conto, se você quiser, clique aqui. Lançado aqui no Brasil pela editora Pipoca e Nanquim, Histórias Assustadoras Para Contar à Noite é uma antologia de contos de terror publicada originalmente em 2019 pelo editor inglês Stephen Jones e ricamente ilustrada por Randy Broecker, no melhor estilo dos quadrinhos da EC, com o título original de Terrifying Tales to Tell at Night: 10 Scary Stories to Give You Nightmares!


    A proposta do livro é exatamente a que está no título, histórias de terror para entreter crianças antes de dormir a luz de uma lanterna embaixo do rosto do narrador ou para serem contadas por adolescentes ao redor de uma fogueira em um acampamento. São histórias bem inteligentes. Oito destes textos foram originalmente publicados em revistas literárias, mas o livro também conta com dois contos até então inéditos feitos para ele em 2019, A Dama do Lado e A Química dos Fantasmas.

    Os autores são Neil Gaiman, R. Chetwynd-Hayes, Lynda E. Rucker, Stephen King, Ramsey Campbell, Manly Wade Wellman, Robert Shearman, Lisa Morton, Michael Marshall Smith e Charles L. Grant. Outro ponto a ser lembrado com esse tipo de publicação é que estilos diferentes de escrita podem influenciar a velocidade de leitura dos leitores de acordo com os respectivos gostos pessoais. Não se assustem se demorarem mais em um conto do que em outro, isto não está vinculado só ao número de páginas, mas ao quanto o(a) autor(a) te prendeu na história mais do que o(a) anterior ou o(a) próximo(a).

    Aqui no Brasil, Neil Gaiman e Stephen King foram os grandes chamarizes de leitores. Lá fora, Stephen Jones, o editor original inglês, é famoso por editar livros de terror e horror na Inglaterra a ponto de suas coletâneas lá venderem pelo nome dele na capa. Ele é um dos poucos editores famosos por serem editores e prima por contos bem escritos, e quando digo “bem escritos” isso não significa que todos os leitores gostarão de tudo; gosto é pessoal. “Bem escrito” significa que, mesmo que você não goste de uma história ou outra, dificilmente ela será desagradável ou arrastada o bastante para que você queira abandonar a leitura no meio.

    A edição é capa dura, bem produzida, padrão Pipoca e Nanquim, feita para durar. Lembra os livros do saudoso Circulo do Livro. Poderia ter uma versão mais econômica? Sim, afinal as histórias são formadoras de público. Poderia ser mais barata ainda tirando as ilustrações fantásticas de Randy Broecker? Por favor, não. Entre ilustrações gerais e mais específicas, a melhor foi a de página inteira para A Dama de Lado. Agora vamos para as perguntas que não querem calar: Alguns contos fazem parte de séries maiores? Não. Todos os contos são independentes e autocontidos. Eu gostei do livro? Sim. Dos 10 contos, gostei de 8, então achei o livro muito bom.

    Qual conto que mais gostei? O Sorriso da Vovó foi escrito por Robert Shearman, a mais aterradora história do livro. Editores, mais histórias dele, por favor. Mas nesse caso, eu não seria justo de destacasse apenas um dentre os que mais gostei. O segundo que mais gostei foi A Química dos Fantasmas, escrito por Lisa Morton. Me fez gostar de personagens que eu normalmente não gostaria e me fez gostar de aprender coisas interessantes sobre química que os professores escolares negligenciam. Quero mais Lisa Morton publicada no Brasil. Menção honrosa para O Homem Que Desenhava Gatos de Michael Marshall Smith, também quero ler mais histórias dele.

    Qual conto eu menos gostei? A Chaminé de Ramsey Campbell possui uma narração em primeira pessoa de um personagem enfadonho e prolixo. Poderia ter sido cortado em bem mais que a metade. Excesso de detalhes desnecessários não é amedrontador, é entediante. Segue a tradição de Edgar Allan Poe em que você pode questionar se os fantasmas existem ou se são só criações das imaginações perturbadas dos personagens, mas sem um estilo poderoso, só uma cópia barata e desonesta. Neste conto, o autor, Ramsey Campbell, não passa de um embuste.

    Vale o alto preço (mais o eventual frete)? Essa é uma pergunta com várias respostas: pela qualidade gráfica, sim. Se você gosta de terror e horror em geral, sim. Se você já é fã de um ou mais autores presentes no livro, sim, afinal, o único conto que já tinha sido publicado por aqui, que eu saiba, foi o do King num livro só dele. Se você quer experimentar vários autores ao mesmo tempo, sim. Vale ressaltar aqui que: parte dos contos e dos autores, apesar dos dois mais famosos, era inédita no Brasil.

    Há versão digital disponível? Sim, mais barata. Não sei qual é o preço dele hoje, afinal, a editora Pipoca e Nanquim trabalha prioritariamente com a Amazon e esta tem promoções o tempo todo, no final, o preço pode variar de acordo com a data em que você chegou aqui.

Boas leituras!? É um livro de terror e horror, bons sustos e pesadelos, hahahahaha!

Rodrigo Rosas Campos

terça-feira, 4 de agosto de 2026

[Matéria] Archimedes Bar Para o Sistema de RPG C4

+18

Alerta de Eventuais Spoilers!

Adaptação livre: Rodrigo Rosas Campos

Archimedes Bar, criado por Al Stefano, Danilo Pereira, Daniel Esteves e Alex Rodrigues

Introdução


    O bar do Archimedes seria um boteco como outro qualquer não fosse o fato inusitado dele ser localizado na esquina do universo em um pequeno asteroide. Ele é um ambiente no melhor estilo Guia do Mochileiro das Galáxias à brasileira que pode ser usado como cenário de apoio em qualquer campanha de ficção científica, seja em tom de galhofa ou não, embora a galhofa seja preferencial.

    Esta adaptação é baseada na história em quadrinhos Archimedes Bar, o conceito e as três histórias da revista foram criados por Al Stefano, Danilo Pereira, Daniel Esteves e Alex Rodrigues. Esta adaptação para o sistema de RPG C4 trará Archimedes, seu papagaio Edmundo, sua freguesia mais fiel e seu fornecedor, Seimour.

Regras do Cenário Para Qualquer Sistema


    1. Você e seu grupo podem criar histórias próprias para o Archimedes Bar expandindo o que foi mostrado nas histórias da revista. Porém, o Archimedes Bar também pode ser um cenário de apoio para o universo que você joga ou para um universo maior que vocês queiram adaptar ou criar.

    2. Como todo bom boteco, o Archimedes Bar pode ser um ponto de passagem ou o início de uma aventura maior. Os personagens que orbitam o Archimedes Bar podem ser: NPCs que auxiliam o grupo; eventuais antagonistas do grupo; ou meros figurantes estilosos a depender do(a) mestre(a).

    3. Mesmo que o grupo decida expandir um universo a partir da história em quadrinhos, todo personagem publicado (não inédito) será um NPC obrigatório.

    4. Archimedes é um terrestre brasileiro, mas não está na Terra. Nesse cenário, todos são alienígenas entre si, incluindo o próprio Archimedes em relação aos demais personagens. Dentro do bar, nenhum estigma social será tolerado. A maioria dos personagens mostrados aqui são visivelmente de planetas diferentes, mas os nomes desses planetas não foram revelados nas histórias, portanto todos esses personagens serão descritos.

    5. As fichas apresentadas aqui podem ter suas estatísticas mudadas (ampliadas, diminuídas, acrescentadas ou subtraídas) de acordo com a visão do(a) mestre para a história, uma vez que se tratam de personagens publicados, NPCs.

    6. As fichas dos veículos e dos cenários propriamente ditos serão opcionais a depender das regras do sistema de RPG escolhido pelo grupo. A menos que algum veículo ou computador tenha uma I.A. com mais personalidade. No caso do sistema de RPG C4, são opcionais mesmo.

    7. Os personagens que não foram nomeados na história em quadrinhos Archimedes Bar ou que não tiveram adjetivos pátrios de seus respectivos planetas natais terão suas fichas criadas livremente por cada mestre(a), bem como serão nomeados por cada mestre(a) em cada grupo. Ou seja, que cada grupo providencie o suplemento da casa dos não nomeados se quiser usá-los.

    7.1. Os não nomeados são: um ser sapiente de uma raça pouco maior que os humanos médios que evoluiu de pássaros e parece uma águia careca americana da história Cerveja, Pássaros e Futebol; ser meio frango inteligente do tamanho de um humano médio, estranhamente, os machos de sua raça tem barba, da história Gira-Luas; um ser com quatro olhos, literalmente, contador de vantagens, mentiroso conhecido da história Gira-Luas; e uma mulher ciclópica de estatura humana de um planeta não revelado da história Gira-Luas.

    7.2. As sugestões de fichas destes personagens para C4 são:

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: 
    Conceito: uma mulher ciclópica de planeta não revelado. Da história Gira-Luas.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * percepção +4
    * tecnologia +4
    * veículos (naves espaciais) +2
    * acrobacia +2

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: 
    Conceito: um ser com quatro olhos, literalmente, contador de vantagens, mentiroso conhecido. Da história Gira-Luas.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * percepção +2
    * tecnologia +4
    * veículos (naves espaciais) +2
    * conhecimento (fofocas) +4

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: 
    Conceito: ser meio frango inteligente do tamanho de um humano médio. Estranhamente, os machos de sua raça tem barba. Da história Gira-Luas.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * tecnologia +4
    * veículos (naves espaciais) +4
    * percepção +2
    * potência +2

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: 
    Conceito: ser sapiente de uma raça pouco maior que os humanos médios que evoluiu de pássaros e parece uma águia careca americana. História, Cerveja, Pássaros e Futebol.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * tecnologia +4
    * veículos (naves espaciais) +3
    * potência+2
    * percepção +1
    * voar +1
    * combate (garras e bicadas) +1

    8. Regra de vale tudo: se o bar do Archimedes for seu cenário de apoio para um universo de super-heróis, aceita-se magia, poderes e equipamentos sem restrições, uma vez que super-heróis é um gênero que aceita de tudo mesmo.

O Básico do Sistema de RPG C4


    C4 (e suas versões) é um sistema de RPG genérico, criado por Tiago Junges, publicado pela editora Coisinha Verde, e que pode ser baixado gratuitamente. Ele é genérico, o que quer dizer que pode ser usado para a criação de qualquer cenário de jogo. Possui licença aberta, ou seja, qualquer material pode ser publicado usando as regras (mas não personagens e ilustrações) de C4.



 

    Ficha de Personagem de C4
    Nome:
    Conceito:
    Pontos de Vida: 
    Pontos de Energia: 
    Perícias etc.:
    *
    *
    *
    *
    *
    *

    Na criação do personagem jogador nenhuma perícia pode ser maior que +4. Os personagens em C4 evoluem com os pontos de progressão. Depois da aventura ou missão completa, o mestre distribuirá 1 ponto de progressão. Com este ponto, os jogadores vão melhorar seus personagens. 1 ponto de progressão poderá ser trocado por: +1 em uma perícia; +5 pontos de energia; +5 pontos de vida; adquirir equipamentos; ou adquirir poderes, estas duas últimas em caso de uso das regras opcionais. Durante o jogo (aventura ou campanha), um personagem poderá chegar ao máximo de +6 por perícia. A munição é limitada em toda arma que dispara, esta é a única desvantagem no jogo.

    A perícia combate exige que o jogador especifique o modo como ele combate. Pode ser algo abrangente; combate (artes marciais)+4; mais específico, combate (karatê) +4; ou mais específico ainda, combate (socos)+4 ou combate (chutes) +4.

    A perícia Animais serve para adestrar, entender e cavalgar em animais de montaria. Veículos é usado para pilotar ou guiar qualquer veículo artificial. O jogador pode especificar o animal que o personagem sabe tratar, mas, se não o fizer, o personagem poderá usar qualquer montaria que o cenário permitir.

    Se o personagem possuir veículos +4, por exemplo, saberá conduzir ou pilotar qualquer veículo que o cenário apresentar. Mas se o personagem tiver veículos (carro) +4, ele só saberá guiar carros. Se o jogador especificar o modelo, veículos (Fusca)+4, ele só dirige Fuscas.

    A perícia conhecimento exige que o jogador especifique o assunto que ele conhece. Pode ser algo abrangente: conhecimento (sobrevivência) +4, sabe tudo de sobrevivência em qualquer situação; mais específico, conhecimento (sobrevivência na selva) +4; ou mais específico ainda, conhecimento (sobrevivência na selva amazônica) +4 ou conhecimento (sobrevivência no deserto do Saara) +4.

    Querendo usar Calisto 2.0 como suplemento, as regras de Calisto 2.0 que podem ser retomadas em C4 são: aparência; ataque mental; ilusão; e regeneração.

    C4 versão 4.1.1 traz a perícia magia que dá acesso a todos os poderes para conjuradores em geral, magos, bruxos, feiticeiros, clérigos etc.

Licença Aberta de C4 - Licença e Uso
    Este jogo foi feito usando o sistema “C4” criado por Tiago Junges e é licenciado sob CC BY 4.0 (Creative Commons). Você pode encontrar este material em www.coisinhaverde.com.br ou nas redes da Coisinha Verde. Tiago Junges e Coisinha Verde não são responsáveis pelo conteúdo deste material.

    As regras opcionais de equipamentos foram pensadas para cenários espaciais. As regras opcionais de poderes dependerão da autorização de cada mestre(a) de acordo com que ele(a) desejar que os não terrestres tenham (ou não) poderes excepcionais.

Personagens do Archimedes Bar Para o Sistema de RPG C4


    Ficha de Personagem de C4
    Nome: Archimedes
    Conceito: humano terrestre que, por motivos não revelados, abriu um boteco na esquina do universo.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * conhecimento (culinária) +2
    * conhecimento (destilaria) +4
    * tecnologia +4
    * veículos (Foguetofusca ou Fusca Foguete) +2

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: Edmundo
    Conceito: papagaio do Archimedes. Apesar de ser terrestre, não é dito como ele possui inteligência de verdade, fala mesmo, não apenas repete sons e tem uma força superior aos papagaios comuns.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * potência +4
    * combate (garras e bicadas) +4
    * voar +2
    * lábia +2

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: Seimour
    Conceito: ser não terrestre humanoide de cabeça grande (testa alongada literalmente) que é o fornecedor de insumos e bebidas do Archimedes.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * tecnologia +4
    * veículos (caminhão espacial) +4
    * conhecimento (novidades do espaço conhecido) +2
    * percepção +2

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: soldado brainiziano 1
    Conceito: um brainiziano oficial da frota espacial.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * potência +4
    * arma média (rifle de energia brainiziano - ataque) +2
    * combate (luta corporal) +3
    * veículos (naves espaciais) +1
    * tecnologia +2

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: soldado brainiziano 2
    Conceito: um braiziniano oficial da frota espacial.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * potência +4
    * arma média (rifle de energia brainiziano - ataque) +2
    * combate (luta corporal) +2
    * veículos (naves espaciais) +3
    * tecnologia +1

Considerações Finais


    Beba com moderação; se beber, não dirija; bebidas alcoólicas são proibidas para menores de 18 anos (até na esquina do universo).

Suplemento 01 de Archimedes Bar Para C4: Liana J. Red, Uma Agente de Resgate da História em Quadrinhos Correr de Alex Rodrigues


    Correr de Alex Rodrigues conta uma missão de resgate espacial da agente de resgate Liana J. Red. Como é uma aventura espacial, ela pode perfeitamente aparecer no Archimedes Bar para fazer uma boquinha.

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: Liana J. Red
    Conceito: humana terrestre agente de resgates espaciais. Criada por Alex Rodrigues para a história em quadrinhos Correr.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * tecnologia +4
    * veículos (naves espaciais) +4
    * proteção média (armadura - defesa) +2
    * arma média (bastão de energia - ataque) +2
    Observação: se se tratar de uma NPC, o mestre pode colocar equipamentos e armas diferentes para cada situação de resgate específica. Se for PC, ela evolui com novas habilidades para combate e resgate ao longo do tempo. Outros tipos de combate, armas de longo alcance, acrobacia etc.



terça-feira, 28 de julho de 2026

[Matéria] Multiverso Domínio Público Ensaio Sobre os Super-Heróis Que Caíram Em Domínio Público - Pequena Revisão

Rodrigo Rosas Campos

Introdução

    Sim, super-heróis também caíram em domínio público, e eles são realmente muitos nos EUA. Listas bem abrangentes podem ser vistas nos sites Wikia - Public Domain Super Heroes, Comic Vine e até na Wikipédia. Muitas histórias em quadrinhos nessa situação estão disponíveis online (em inglês) nos sites Comic Book Plus (+) e The Digital Comics Museum. É de surpreender a quantidade imensa de material.

    Se você está pensando que, “estes personagens são tão de segunda que ninguém quis renovar os direitos” como aconteceu com os grandes das atuais DC e Marvel, prepare-se para surpresas. Este ensaio é, justamente, sobre o multiverso baseado em domínio público. Estes personagens possuem força popular suficiente para ainda serem publicados. Muitas editoras estadunidenses iniciaram linhas com os super-heróis que caíram em domínio público, criando um verdadeiro multiverso do domínio público, duplicando e espalhando os personagens por vários universos fictícios.

    Este ensaio é sobre personagens como: o Daredevil original de 1940; Captain Flag de 1941; The Owl de 1940; Miss Masque de 1941; Captain Future de 1940; Atomic Man de 1941; Amazing Man de 1939; The Clock de 1936; The Arrow de 1938; Green Lama de 1940; Airman de 1940; Sub-Zero de 1940; Pyroman de 1942; Pat Patriot de 1941; Captain Freedom de 1941; American Eagle de 1942; V-Man de 1942; Marvelo de 1940; Raven de 1940; Black Venus de 1944; The Hood de 1941; Black Cat de 1941; Moon Girl de 1947; Star de 1949; Lady Satan de 1941; Lash Lightning de 1940; Lightning Girl de 1942; Woman in Red de 1940; Yankee Girl de 1945; Yankee Girl de 1947; Amazona the Mighty Woman de 1940; entre tantos outros. Mostrando um resumo geral do que aconteceu com eles. Mas como tantos personagens bons foram criados e esquecidos?

    Com a criação e publicação do Superman em 1938 na revista Action Comics #01 pela National Periodics – que viria a se tornar a atual DC comics -, várias editoras entraram de cabeça no novo gênero, o de super-heróis. Muitas delas já possuíam vigilantes e magos. O diferencial do Superman para com os aventureiros fantasiados anteriores era o fato de que ele não dependia nem de magia nem de equipamentos ou armas para atuar. De fato, foi o primeiro super-herói da história.

    O sucesso dos super-heróis durou até o fim da Segunda Grande Guerra. Estava terminada a chamada Era de Ouro dos Quadrinhos. Vale lembrar que o termo Era de Ouro não se refere só aos quadrinhos de super-heróis e aventureiros, mas aos quadrinhos norte-americanos como um todo. Personagens emblemáticos, como o Ferdinando, são dessa época.

    Outro ponto a ser lembrando é que os melhores quadrinhos da época eram distribuídos em tiras de jornais pelo mundo todo. Os autores desse material sim, possuíam prestígio, dinheiro, os direitos de suas criações, e renome. Isso tudo é bem lembrado e contado por Daniel HDR no Arg Cast sobre os Defensores da Terra.

    As primeiras revistas de quadrinhos (comic books) não passavam de compilações dessas tiras. Action Comics, se não foi a primeira, foi uma das primeiras revistas a apresentar material inédito e exclusivo.

    Inicialmente, o próprio Superman era de Siegel e Shuster, mas logo os editores começaram a encomendar personagens e séries mediante pagamento e cessão de direitos autorais. Os próprios criadores do homem de aço venderam os direitos do personagem para a então National Periodics. As famílias dos criadores do Superman brigam até hoje por uma parte maior nos lucros do personagem, mas o fato é que, nos EUA, é permitida a venda de direitos autorais e Siegel e Shuster os venderam.

    O pós-guerra trouxe aos EUA a paranoia do “perigo” comunista, o Macartismo e a censura nos quadrinhos, sobretudo os de terror e super-heróis. Os alvos preferências do livro A Sedução do Inocente foram os quadrinhos de terror e a dupla Batman e Robin, acusada de homossexualismo.

    Veio então o Comics Code Authorit, uma autocensura da indústria para evitar uma censura maior. O fato é que grande parte das editoras de quadrinhos nos EUA, ou fecharam ou mudaram de ramo ou quebraram. Este código de ética começou a valer em 1954 e só terminou, oficialmente, em 2011.

    Maiores detalhes sobre esse período no blog Quadrinhopop (http://quadripop.blogspot.com.br/2014/06/historias-em-quadrinhos-em-dominio.html) em uma matéria de Mark Almeida; e no pod cast do Universo HQ, Confins do Universo #02 (http://www.universohq.com/podcast/confins-do-universo-002-a-censura-nos-quadrinhos/).

    Em resumo, toda essa paranoia, censura e perseguição ao terror e aos super-heróis acabaram falindo a maior parte das editoras da época. Deixando espaço apenas para as que tinham títulos campeões de vendas e que se tornariam as atuais DC comics (que comprou várias editoras menores) e Marvel Comics.

    Outro detalhe importante a ser lembrado é que a maior parte dos artistas que trabalhavam para as editoras de comic books (revistas em quadrinhos) era de freelancers e trabalhava por pagamento, prestação de serviço, “work for hire”, cedendo os direitos de suas criações para os editores, pessoas jurídicas, empresas. Isso era parte do contrato de trabalho. O leitor mais atento verá que, muitos dos criadores que serão mencionados nesse texto morreram recentemente, mas quando esses personagens foram produzidos, já o foram com a condição de que eles não seriam os donos dos direitos das próprias criações.

    Mas deixemos de lado este período obscuro e vamos ao que interessa aqui.

O Multiverso dos Super-Heróis do Domínio Público

    Como já foi dito, muitos desses personagens não foram tão esquecidos quanto poderia se pensar. Depois da queda no domínio público chegaram a ser relançados em algumas editoras com o passar dos anos. Vajamos alguns dos títulos mais conhecidos:

    Next Issue Project da editora Image: a Image, sobretudo o autor e desenhista Erik Larsen no título de sua autoria, o Savage Dragon, usou os personagens de domínio público para ter uma era de ouro em seu universo unificado da época. Acontece, que a editora surgiu no início dos anos 1990 e Larsen quis que a realidade do Dragon fosse como a das empresas concorrentes, DC e Marvel, que tinham heróis de três gerações. Foi na história do Dragon que o Daredevil original ressurgiu; aqui no Brasil, pararam de publicar a revista do Dragon nessa fase, pois essa história específica chegou a ser publicada pela Mythos na edição Savage Dragon Unidos. Nos Estados Unidos, originalmente saiu em novembro de 2008 na edição 141 de Savage Dragon. O passo seguinte foi dar um título para estes personagens serem reapresentados de uma melhor forma para um novo público, o Next Issue e seus desdobramentos. Lembrando que antes da Image se tornar uma editora realmente independente, o que ela é hoje, o projeto inicial era que ela rivalizasse com a DC e com a Marvel, com a única diferença de que seus criadores e sócios manteriam os direitos totais sobre os trabalhos. Ou seja, ela surge como um universo unificado de super-heróis visando lucro com merchandising, ainda que esse lucro fosse para os autores. As desavenças entre os sócios destruíram este universo unificado, a Image se fragmentou em várias editoras menores. Savage Dragon é, hoje, um dos poucos títulos da Image original que permanecem na empresa sob o selo Image. De modo que todas essas histórias ainda são válidas (ou, ao menos, válidas para o Savage Dragon). Se estas histórias não tem notoriedade, são consideradas menores, é por que a Image original, como um todo, não passou de uma grande bolha de consumo; ao contrário da Image hoje, a mais respeitada editora realmente independente dos EUA.

    Fem Force da editora AC Comics: Um universo estrelado por reformulações de heroínas que caíram em domínio público. Neste cenário, são elas, e não eles, as principais estrelas. Uma mudança de paradigma ousada e relevante num universo/multiverso dominado(s) por homens. Uma excelente ideia, apesar de visualmente polêmica por ter os garotos como público-alvo principal. Ainda sim, eram elas nos holofotes e eles como coadjuvantes, isso não é tão pouco como pode parecer. Pena que não chegou no Brasil. Aves de Rapina da DC bebe dessa fonte.

    Protectors da editora Malibu Comics: somente com os personagens da antiga editora Centaur Publications. Foi uma reformulação simples que unificou aqueles heróis num grupo a serviço do governo, enredo (plot) bem banalizado na época, sobretudo pela Image. Alguns foram mudados para virarem marcas específicas da Malibu Comics (foram renomeados e/ou redesenhados mantendo a história básica). Nada disso chegou aqui, mas, nesse caso, quem liga?

    Terra Obscura do selo America´s Best Comics da editora DC: Spin off (desdobramento) da série Tom Strong de Alan Moore, para o selo Américas´s Best Comics da editora DC. Terra Obscura foi escrita por Moore, mas ficou restrita a um público mais específico de quadrinhos. Lembrando: Tom Strong é criação de Alan Moore e não está em domínio público. É um Alan Moore, ame-o ou odeie-o, mas vale a leitura.

    Project Superpowers da editora Dynamite Entertainmant: Alex Ross criou um universo para editora Dynamite a partir dos personagens de domínio público. Este foi o título que teve mais visibilidade internacional, apesar de não ter agradado tanto a crítica e o público. Foi o único dos grandes trabalhos de Ross que não foi premiado: os outros são Marvels, Astro City e Reino do Amanhã. Veremos um pouco mais sobre essa história a seguir. É importante guardar uma informação aqui, Alex Ross é um dos poucos artistas de quadrinhos da atualidade a trabalhar com super-heróis que consegue uma obra requintada e, ao mesmo tempo, comercial para todos os públicos.

    Atenção: os personagens são de domínio público, mas todo esse material mencionado é de propriedade das respectivas editoras. Não entendeu? Explico.

    Sherlock Holmes foi escrito por Arthur Conan Doyle em romances e contos na virada dos séculos XIX para o XX.

    Sherlock Holmes e as histórias escritas por Doyle caíram em domínio público; qualquer um pode publicar essas histórias ou usar os personagens em novas histórias.

    Jô Soares escreveu e publicou o Xangô de Baker Street em 1995, a vinda de Holmes ao Brasil.

    Para publicar o Xangô de Baker Street é preciso pagar direitos autorais para Jô Soares, pois ele escreveu essa história específica que não caiu em domínio público.

    Este ensaio foi originalmente escrito entre 2015 e 2016 e o mencionado livro do Jô Soares ainda era publicado pela Companhia das Letras, talvez ainda seja.

    Retomando o assunto, agora veremos as duplicatas perdidas em universos TMs. Algumas editoras com universos estabelecidos também recorreram ao domínio público para dele retirar personagens mais específicos (ou mesmo ideias). E estamos falando aqui dos universos (até então) regulares da DC e da Marvel. Observe algumas duplicatas perdidas de heróis em domínio público em universos proprietários:

    O Green Lama da Marvel Comics: publicado no Brasil pela Panini em 2006 em Maiores Clássicos dos Vingadores #01, o Lama Verde (Green Lama) aparece na história.

    John Aman da Marvel Comics: baseado no Amazing-man, este Aman é mentor do Punho de Ferro.

    Há três Amazing-Men negros nos universos (até então) regulares da DC. O primeiro está lá desde antes da primeira Crise: seus criadores admitem retcons baseados no herói de domínio público. E tem gente que pensa que mudar etnias de personagens foi ideia da Marvel.

    O Magno da DC Comics: o herói magnético criado em 1940 por Paul Chadwick gerou várias versões (com outros nomes até) nos universos (até então regulares) da DC.

    Coruja da Marvel Comics: na Marvel, há o Esquadrão Supremo numa Terra paralela, equivalente à da DC, no multiverso Marvel. Esta Terra foi criada quando o primeiro acordo que faria a união da Liga da Justiça com os Vingadores não deu certo. Os envolvidos no projeto não quiseram desperdiçar o material produzido para estudos e adaptaram a história. A Saga da Coroa da Serpente chegou a sair no Brasil ainda pela editora Abril.

    Aqui, não está sendo levado em consideração os personagens diferentes com nomes iguais, como são os casos do Wonder Man, Quick Silver, Daredevil (voltaremos a ele) e da Black Cat. Nem aqueles que compartilham apenas poderes em comum, como no caso de Magno e Magneto. Stan Lee e seus seguidores são muito criativos, não é mesmo? A Marvel pode até ser a casa das ideias, mas está longe de ser maternidade. Enfim, adiante.

    Mas apesar de todos os resgates anteriores desses personagens, nenhum fez tanto barulho quanto o Projeto Superpowers.

    Foi preciso o nome de peso de Alex Ross, já consagrado com Marvels, Reino do Amanhã e Astro City, encabeçar o Projeto Superpowers para a editora Dynamite Entertainment para dar a esses personagens esquecidos a visibilidade internacional que nunca tiveram antes.

    Mesmo o mais popular desses personagens esquecidos, o Daredevil da era de ouro, só rodou o mundo de verdade pela arte de Ross. Vamos a ele, um pouco, antes de falarmos da obra de Ross e de sua importância.

O Original Esquecido: O Caso Daredevil


    O caso do Daredevil original da era de ouro dos quadrinhos é emblemático. Ele foi criado por Jack Binder, Charles Biro e Jack Cole em 1940 e caiu em domínio público. Nos anos 1960, Stan Lee criou um personagem diferente, mas usou o nome Daredevil (o Demolidor, aqui no Brasil), que acabou se tornando uma das marcas registradas da Marvel.

    Ao criar seu Daredevil, Stan Lee não partiu do zero. Havia um personagem que não era mais publicado, mas ainda era lembrado. Tinha um nome e uma roupa de demônio. Era mudo por trauma e usava um par de boomerangs. Foi trocar a mudez pela cegueira, os boomerangs pelo bastão com gancho, dar a ele um radar que lembrava a visão sobre humana do Black-Bat – um concorrente direto do Batman na era de ouro que não vingou - e estava pronto o novo Daredevil de Stan Lee, Bill Everet e Wally Wood (criador do uniforme vermelho e do emblema de duplo D).

    Os dois personagens são inconfundíveis, apesar de homônimos e parecidos, mas algumas pessoas, físicas ou jurídicas, acabam renomeando o personagem original para evitar atritos legais com a Marvel. A tabela a seguir é só um exemplo de como isso aconteceu.

 

Se precisar, clique na imagem para ampliar!

Observação: depois dessa tabela pronta, surgiu uma nova editora no Brasil, a Eroica Studio, dedicada a publicar material de domínio público em quadrinhos. Nela, O Daredevil original foi traduzido como Desafiador Destemido na série Heróis Esquecidos.
 

Direitos Autorais e de Cópia nos EUA


    O caso do Daredevil ilustra bem uma situação da lei norte-americana sobre direitos autorais. Isso é um cuidado importante que o leitor deve ter: o fato que os direitos autorais nos EUA não são unificados, de forma que há histórias de certos personagens que caíram em domínio público, outras não, algumas editoras detém exclusividade sobre a marca, outras sobre o nome etc. Nos EUA, tudo isso é separado.

    Caso haja algum escritor entre os leitores, um aviso: em caso de dúvida, como o Capitão Marvel Jr. e o Shield, por exemplo, não usem os personagens em materiais que pretendam publicar.

    Não será este ensaio que explicará todos esses labirintos e nós. Caso haja algum jurista ou estudante de direito que se interesse por domínio público, fique à vontade para pesquisar. A matéria de Mark Almeida, já citada é um excelente ponto de partida. Para o momento, só interessa que o direito autoral nos EUA não é unificado. Isso permitiu a Stan Lee e a Marvel o uso do nome e de algumas outras características de personagens já existentes na criação de outros. O Daredevil não foi o único.

Incontestavelmente Domínio Público


    Mas o que é incontestavelmente de Domínio Público e onde achá-lo?

    As histórias e biografias desses personagens que podem ser usadas por qualquer um e são usadas constantemente por vários autores e editoras, como já visto, estão nos sites:

    Comic Book Plus (+) (http://comicbookplus.com).
    The Digital Comics Museum (http://digitalcomicmuseum.com).
    Wikia - Public Domain Super Heroes (http://pdsh.wikia.com/wiki/Public_Domain_Super_Heroes).

Criadores


    Mas não é por que os personagens são de domínio público que as pessoas podem ignorar as informações disponíveis sobre seus criadores, nomes originais e quando foram criados. Segue uma pequena lista com alguns personagens.

Personagens e Criadores


    Captain Flag de 1941, criado por Joe Blair e Lin Streeter.
    The Owl de 1940, criado por Frank Thomas.
    Miss Masque de 1941, criada por autor desconhecido, não há créditos para o texto e a arte interna, mas as primeiras e mais importantes capas são de Alex Schomburg e Frank Frazetta (Vampirella).
    Captain Future de 1940, criado por Kin Platt.
    Atomic Man de 1941, criado por Charles Voight.
    Amazing Man de 1939, criado por Bill Everett.
    The Clock de 1936, criado por George Brenner.
    The Arrow de 1938, criado por Paul Gustavson. Sim, é anterior ao Arqueiro Verde da distinta concorrente.
    Green Lama de 1940, criado por Ken Foster Crossen.
    Airman de 1940, criado por George Kapitan e Harry Sahle.
    Sub-Zero de 1940, criado por Larry Antonetti.
    Pyroman de 1942, criado por Jack Binder.
    Pat Patriot de 1941, criada por Charles Biro, Bob Wood e Reed Crandall.
    Captain Freedom de 1941, criado por Arthur Cazeneuve & "Franklin Flagg".
    American Eagle de 1942, criado por Richard E. Hughes e Kin Platt.
    V-Man de 1942, criado por autor desconhecido.
    Marvelo de 1940, criado por Fred Guardineer.
    Raven de 1940, criado por autor desconhecido.
    Black Venus de 1944, criada por autor desconhecido.
    The Hood de 1941, criado por autor desconhecido.
    Black Cat de 1941, criada por Al Gabriele.
    Moon Girl de 1947, criada por Max Gaimes, Gardner Fox e Sheldon Moldoff.
    Star de 1949, criada por Sheldon Moldoff.
    Starlight de 1950 (data de publicação), criada por Ann Adams e Ralph Mayo.
    Lady Satan de 1941, criada por George Tuska.
    Lash Lightning de 1940, segundo o Wikia - Public Domain Super Heroes, foi criado por Jim Mooney e Bob Turner. Segundo o Comic Vine, o autor é desconhecido.
    Lightning Girl de 1942, criada por autor desconhecido.
    Woman in Red de 1940, criada por Richard E. Hughes e George Mandel.
    Yankee Girl de 1945, criada por autor desconhecido.
    Yankee Girl de 1947, criada por Ralph Mayo.
    Amazona the Mighty Woman de 1940, criada por Wilson Locke, Alex Blum e Dan Zolnerowich. Sim, ela é anterior a Mulher-Maravilha da distinta concorrente.
    O, já tão mencionado, Daredevil de 1940, o original, criado por Jack Binder, Charles Biro e Jack Cole.
    Entre muitos outros!

    Como não era habito dos editores na época creditarem os artistas e escritores nas revistas em quadrinhos (comic books), muitos autores e desenhistas criadores permanecem desconhecidos ou não identificados até hoje.

A Importância de Projeto Superpowers


    Voltando a falar sobre essa obra polêmica de Alex Ross e recapitulando: foi essa obra que deu visibilidade internacional a esses personagens esquecidos. E é aí que está a maior importância desse título. Mas antes de falarmos nisso, vamos ao outro tópico;

    Não foi um sucesso retumbante. Alex Ross vinha de projetos em que ele e suas respectivas equipes acumulavam prêmios. Quando fez o projeto Superpowers já era o capista mais requisitado (e caro) dos EUA. Marvels e Reino do Amanhã já tinham dado a ele renome internacional. Cocriador de Astro City, série que acumulou elogios e prêmios numa época em que os super-heróis estavam banalizados e em baixa, os terríveis anos 1990.

    O título Projeto Superpowers sai em 2008, depois de Alex Ross já ser o artista mundialmente consagrado. Mas, pela primeira vez, o texto foi predominantemente do Ross. Como sempre, ele fez a concepção visual e as capas, mas os artistas do miolo não seguiram tão a risca as concepções de Ross. Esse é o primeiro ponto negativo da série.

    A colorização digital ficou muito escura e fake. Exemplo, há uma onda de mar que parece uma escultura estática por tantos detalhes. Segundo ponto negativo.

    Em seus projetos anteriores, Ross criticava a banalização do enredo (plot) de Watchmen, em que os próprios super-heróis piorariam o mundo que tentavam consertar. Em Projeto Superpowers, o Combatente Ianque comete um erro crasso e só começa a concertá-lo em 2008, quando uma sociedade secreta de super-vilões com o apoio de um antigo herói renegado tomou o poder. Vemos uma certa reprise de Reino do Amanhã, aonde os heróis antigos retornam aos poucos para concertar os estragos e influenciar as novas gerações.

    Bom, em 2008, o público já estava saturado disso. Mas o principal alvo de crítica dessa série de minisséries e seus desdobramentos é que elas são da editora Dynamite. Numa metáfora com o cinema, Ross foi um diretor/roteirista contratado para realizar o filme que o estúdio queria. Tanto é assim que, os direitos do Projeto Superpowers são da Dynamite Entertainment.

    O final da primeira série mostra os antigos heróis se reunindo contra a ditadura do Homem Dinâmico, sendo, ele próprio, apenas um testa de ferro. Ou seja, agora a Dynamite tem um universo para chamar de seu para competir com a DC e a Marvel, além de um genérico de Watchmen, com o nome de Alex Ross encabeçando a equipe criativa.

    Apesar de tudo isso a história não é ruim. Qualquer outra pessoa que a realizasse não seria tão cobrada como o Ross, mas todos esperamos mais dele. A história é boa, mas não é brilhante. A leitura vale muito a pena e que cada leitor tire suas próprias conclusões.

    Mais o maior legado de Projeto Superpowers foi mostrar, como nunca anteriormente, super-heróis que qualquer pessoa pode usar em seus próprios trabalhos sem medo de processos. Isso vai muito além dos quadrinhos e da criação de outras histórias. Pode se escrever livros, filmes, PRGs, produzir bonecos articulados (action figures), jogos de cartas, jogos de tabuleiros, videogames, e diversos produtos, sem ter que pagar nada a ninguém. Até mesmo a republicação e tradução das histórias originais é livre; a Dark Horse, concorrente da Dynamite, têm, em seu catálogo atual, os aquivos com as revistas originais do primeiro Daredevil, com o nome original estampado na capa inclusive, e não só dele, como de quase todos os personagens que aparecem no título da Dynamite.

    A Dynamite é detentora dos direitos das histórias específicas da série Projeto Superpowers e seus derivados na própria empresa, mas ela não é dona dos personagens e qualquer um pode usá-los como bem quiser. A Marvel tem o Daredevil mais famoso (o Demolidor, aqui no Brasil), mas o Daredevil original pode ser publicado ou republicado por qualquer um.

    Sem contar que Ross, apesar de não ter feito aquela história para os padrões que ele mesmo estabeleceu com outras equipes, demonstrou o quanto se pode ousar quando os personagens usados não são os figurões imutáveis com legiões de fãs irritantes que não permitem mudanças definitivas por colocarem as TMs acima das boas histórias.

    O leitor pode até não gostar de Projeto Superpowers e não concordar com o que ele fez com aqueles personagens, mas é bem escrito e divertido de ler. Ele demonstrou mais uma vez que: não existem personagens de segunda linha, existem criativos de segunda linha. Ou, dito de outra forma, não existem personagens buchas, existem escritores e artistas buchas.

    Vale lembrar que o Demolidor (Daredevil da Marvel) só conheceu o sucesso nas mãos de Frank Miller (Sin City, 300, Ronin etc.).

    Atualmente o projeto Superpowers se encontra nas mãos de uma nova equipe criativa. Alex Ross continua em outros projetos da editora, sobretudo como capista.

    Concluo dizendo que além dos sites mencionados, segue a bibliografia do pouco que encontrei publicado no Brasil.


Bibliografia


    LARSEN, Erik.  Savage Dragon: Unidos.  São Paulo: Mythos, 2012.

    ROSS, Alex (história, artes de capas, concepção visual e direção de arte)/ KRUEGER, Jim (história e texto)/ PAUL, Carlos (arte)/ KLAUBA, Doug (arte)/ SADOWSKY, Stephen (arte).  Projeto Super Powers.  São Paulo: Devir, 2011.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

[Resenha] Archimedes Bar de Al Stefano, Danilo Pereira, Daniel Esteves e Alex Rodrigues

 

+18

    Mais um dia no bar do Archimedes, que seria um boteco como outro qualquer não fosse o fato inusitado dele ser localizado na esquina do universo em um pequeno asteroide. A revista traz 3 histórias, ilustrações extras e muito humor nonsense no melhor estilo de um Guia do Mochileiro das Galáxias à brasileira. Comprei no site da editora, a Zapata Edições, lombada canoa, miolo em preto e branco, 32 páginas numeradas (uma raridade hoje em dia), R$ 16,00 (mais o eventual frete). Ela foi publicada em 2015 e consegue o feito de ser divertida em qualquer tempo e espaço. Mas vamos às histórias:

    Fermentação tem texto e desenhos de Al Stefano: ao acordar para mais um dia..., ou melhor, ciclo de trabalho, Archimedes recebe um telefonema de Seimour, seu fornecedor, dizendo que o carregamento de malte para cerveja foi parado num bloqueio intergalático por brainizianos que temem as ameaças terroristas contra o sistema Donzíria. Vendo seu estoque de cerveja acabar, Archimedes pega seu foguetofusca e parte para o bloqueio para tentar resolver o problema pessoalmente e liberar a carga.

    Gira-Luas tem roteiro e desenhos de Danilo Pereira e trata de uma briga entre seres de planetas diferentes, afinal, neste contexto, até nosso querido Archimedes também é um aliem oriundo da Terra. De um lado, um sujeito de quatro olhos (literalmente) e uma mulher ciclópica que o acusa de mentiroso. Para evitar que a briga chegue as vias de fato, Arquimedes propõe um desafio de cachaça e diz que colocará em um dos copos um veneno que só afeta covardes e mentirosos. Que veneno será esse? Quem ganhou o desafio? Aí será preciso ler a história.

    A última história é Cervejas, Pássaros & Futebol, nela, descobrimos que o papagaio de Archimedes não só fala como é inteligente de fato; mesmo sendo um papagaio terrestre, de alguma maneira ele entende e responde a todos de forma coerente, não apenas repetindo sons. Tal revelação se dá quando o bar recebe um cliente de um planeta cuja vida inteligente evoluiu dos pássaros e ele chega ofendendo Archimedes e a todos os humanos terráqueos. Isso chama a atenção do papagaio de Archimedes que faz coro com o recém-chegado metendo o malho nos humanos da Terra. Mas a paz entre o papagaio e o visitante acaba quando o assunto descamba para o futebol. Descubra o que aconteceu lendo a história.

    Mas aí o leitor deve estar se perguntando: qual destes escritores criou o conceito das histórias? Não sei. A última página da revista traz os créditos detalhados, história por história, mas dá a entender que Archimedes Bar foi uma grande criação coletiva de todos os envolvidos. Um cenário que pode ser encaixado em qualquer universo de ficção científica em forma de paródia (ou não).

    As ilustrações extras são de Samuel Bono e Alex Rodrigues (páginas 2, 12 e 20), Alex Rodrigues (páginas 1 e 30) e Danilo Pereira & Alex Rodrigues (página 31). A capa é de Wanderson de Souza. Os quadrinhos são excelentes, despretensiosos, divertidos e inteligentes. Não espere convite, pegue um carro foguete ou um ônibus espacial, vá até a esquina do universo e jogue conversa fora bebendo uma cerveja e comendo um petisco no Archimedes Bar. Boas leituras; beba com moderação; se beber, não dirija; bebidas alcoólicas são proibidas para menores de 18 anos (até na esquina do universo); e até breve!

Rodrigo Rosas Campos

quinta-feira, 23 de julho de 2026

[Resenha] Vini Bruxão: Rinha de Sangue de Pedro Okuyama


    Vini Bruxão: Rinha de Sangue de Pedro Okuyama, roteiro, desenhos e arte-final, traz mais uma aventura do jovem bruxo detetive do sobrenatural, Vini. Uma lutadora de sumô sonha com seu falecido marido, também lutador de sumô. Nesses sonhos, ele diz a esposa que mentiram para ela. Intrigada, ela procura Vini, que vai investigar e descobre lutas clandestinas entre lutadores de sumô que também são vampiros.

    Ir além daqui é dar spoilers. A história é fechada, desenhos em estilo mangá, muita ação e humor. Sem preder o tempero brasileiro, mais especificamente, paulista, Pedro Okuyama nos brinda com uma história que em nada fica a dever aos mangás japoneses, ambientada em São Paulo e isso dá todo um charme não só a Rinha de Sangue, mas a toda a série Vini Bruxão. A edição é R$40,00 (mais eventual frete). Lombada quadrada, miolo em preto e branco e formato paraguaio. Uma história em quadrinhos muito bem desenhada e muito bem escrita.

    Agora, essa resenha não seria honesta se eu não falasse dos problemas editorias da publicação. As páginas não terem numeração, parece que virou um erro generalizado, mas que nunca será aceitável. A capa deste volume de Vini Bruxão não traz o título da história específica ou o número do volume. “Tem no site da editora!”, mas ter estas especificações na capa é dever básico do editor. Preferencialmente, o selo da editora também deveria estar na capa. Ficam as dicas para melhorias nas próximas edições. Bom, esses erros do editor da Zapata Edições não apagam o fato de que Vini Bruxão: Rinha de Sangue é uma boa história de terror e aventura para todas as idades. Boas leituras e, se puderem, bons sonhos, hahahaha!

Rodrigo Rosas Campos

Aqui, coloco a ficha do Vini para o sistema de RPG C4:

    Ficha de Personagem de C4
    Nome: Vini Bruxão
    Conceito: detetive bruxo de São Paulo nos dias atuais. Criado por Pedro Okuyama.
    Pontos de Vida: 10
    Pontos de Energia: 10
    Perícias etc.:
    * magia +4
    * percepção +4
    * acrobacia +2
    * conhecimento (ocultismo) +2 

[Matéria] Super-heróis Made in Brazil, Sim, Eles Existem

Rodrigo Rosas Campos Introdução     Não entrarei no mérito acadêmico de que super-heróis são manifestações típicas dos EUA assim como o rock...