terça-feira, 6 de outubro de 2026

Garimpando Em Gibiterias Especial: Resenha Revista do Encalhernado de Cartas Selvagens da Epic pela Editora Globo

+18, só Por Garantia!


    O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal como livros clássicos. Os editores de quadrinhos nacionais são bem imediatistas e até mesmo obras como Watchmen e Maus ficam difíceis de encontrar de tempos em tempos. A série “Garimpando em Gibiterias” fala de quadrinhos que valem a pena “garimpar” em gibiterias, sebos, estoques antigos de livrarias virtuais e, se a grana estiver muito curta, em bibliotecas públicas. Sim, existem quadrinhos em bibliotecas públicas, é só procurar.

    A pedra garimpada de hoje é Cartas Selvagens da Epic que saiu pela editora Globo aqui no Brasil. Já fiz uma resenha deste gibi no Literakaos, porém percebi que a resenha original não ficou tão focada na edição em si, falei mais da série de livros originais.

    Na história, a Terra é usada como campo de teste de um vírus mutagênico artificial do planeta Takis. Um dos cientistas responsáveis se arrepende e vem à Terra tentar impedir a disseminação do vírus, mas ele fracassa, ficando aprisionado em nosso planeta alterado para sempre. Anos depois, um atentado ao túmulo de Jet Boy desencadeia uma investigação que traz a tona memórias amargas e ressentimentos profundos. Um evento presente que abre ainda mais as feridas de um mundo marcado pelas mutações do vírus alienígena carta selvagem. Neste contexto, acompanhamos a aliança de Crisálida, Tachyon, Dorminhoco, Peregrina e Poping Jay na busca pelo terrorista que explodiu o túmulo de Jet Boy.

    O vírus alienígena conhecido como Carta Selvagem pode: matar o infectado instantaneamente, dama de espadas; deformar o infectado, coringa; ou dar superpoderes para o infectado sem nenhum ônus, os raríssimos e sortudos ases. Nesse mundo, os desafortunados e segregados coringas vivem em guetos, como o Bairro dos Coringas em Nova York.

    Cartas Selvagens (Wild Cards) é uma série de livros de super-heróis para adultos – desaconselhável para menores de 18 anos. Surgiu em uma mesa do RPG Super World, quando o grupo resolveu romancear a campanha que jogava. O mestre do jogo era George R. R. Martin que organiza e coescreve a série, junto com os jogadores de sua mesa; com destaques para: Melinda M. Snodgrass, criadora do Doutor Tachyon e de toda a trama do planeta Takis que deu origem ao vírus; Roger Zelazny, criador do Dorminhoco, maior ícone da série; Steve Perrin, criador do Cyclone, Mistral, Digger Downs e do RPG SUPERWORLD, o jogo de RPG que inspirou a série.

    O grupo de escritores liderados por George R. R. Martin, criadores e donos de Wild Cards, resolveram licenciar os direitos da série de livros para os quadrinhos e escolheram o selo Epic, ligado a Marvel Comics, para lançá-lo. A Epic era um selo independente na Marvel, ou seja, não tirava os direitos dos autores. Assim, a primeira adaptação de Wild Cards foi uma minissérie em quatro edições pela Epic, escritas pelos mesmos escritores dos livros e ilustrada por grandes nomes dos quadrinhos na época que ainda mantinham vínculos com a Marvel.

    Depois do lançamento da série, a Globo fez essa edição encadernada da minissérie. Literalmente encadernada, pois essas edições não são uma republicação em volume único, mas as edições encalhadas remontadas e encadernadas em uma capa de papel cartão impressa posteriormente, onde as quatro capas brasileiras foram descartadas. Isso era muito comum, fazendo as minisséries antigas valerem mais separadas que compiladas no Brasil. Estes encadernados de encalhes são conhecidos como “encalhernados”.

    As quatro edições separadas são bem mais difíceis de se encontrar em gibiterias, sebos e Internet. Na Internet, os preços por cada uma dessas edições é exorbitante. Eu tive sorte de encontrar o encadernado em preço bom. Na época do lançamento, li as quatro edições de um amigo e fiquei fã do universo desde então.

    É uma excelente pedida enquanto história em quadrinhos. Traz as artes de grandes nomes dos quadrinhos americanos (desenho, arte final e cores) de uma época que não havia computador para ajudar. Tudo era feito a mão! É anterior a Marvels e algumas páginas são pintadas. Vários artistas, cada um com certo número de páginas, criando um mosaico de estilos variados com o mesmo grupo de personagens. É bonito de ver. A Globo ainda teve o cuidado de pôr na contracapa do encadernado uma folha-corrida dos personagens.

    Apesar de ter sido escrita pelos mesmos autores dos livros, não é parte do universo regular. Para quem acompanhou os livros publicados aqui pela Leya/Omelete, saiba que a história dos quadrinhos foi a mesma até o livro 5. Esse quadrinho se passa depois dos eventos do quinto volume e é desconsiderado nos livros 6, 7 em diante. Ou seja, a história dos quadrinhos se passa em um dos universos paralelos de Cartas Selvagens, não no principal dos livros. Mas, no termo da modinha, também é cânone, pois o multiverso aparece oficializado no livro 9.

    Como a série de quadrinhos da Epic não passou das 4 edições de uma mesma história em formato de minissérie, esse primeiro universo paralelo de Cartas Selvagens permanece com sua história maior em aberto. Se você quiser um “para saber mais” sobre esta revista, clique aqui. O garimpo entra em novo recesso. Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


sábado, 3 de outubro de 2026

Garimpando em Gibiterias Especial – Resenha Compacta - Dossiê Bizarro - Sensacionalismo em Quadrinhos


 +18

    O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal como livros clássicos. Os editores de quadrinhos nacionais são bem imediatistas e até mesmo obras como Fradim, Watchmen, Piratas do Tietê e Maus ficam difíceis de encontrar de tempos em tempos. A série “Garimpando em Gibiterias” fala de quadrinhos que valem a pena “garimpar” em gibiterias, sebos, estoques antigos de livrarias virtuais, feiras de livros e, se a grana estiver muito curta, em bibliotecas públicas. Sim, existem quadrinhos em bibliotecas públicas, é só procurar.

    Sabe aquelas histórias sensacionalistas de tabloides e programas de TV nada confiáveis que envolvem até E.T.s e seres sobrenaturais? Pois bem, esta é a matéria-prima das histórias em quadrinhos de Dossiê Bizarro. Aqui, os autores pegaram essas notícias esdrúxulas e as transformaram em divertidas histórias de quadrinhos de terror. E, se as histórias parecem exageradas e apelativas, é porque são exageradas e apelativas mesmo. É sensacionalismo adaptado para quadrinhos.

    Quanto a algumas das 11 histórias: a mais surpreendente foi Dies Irae, escrita e desenhada por Daniel Sousa. A melhor foi O Desejo Oculto Nas Trevas, com texto e desenhos de Laudo Ferreira. A mais atual (embora e execução seja clichê) é Ponto de Fuga com roteiro de Douglas Freitas, desenhos, The Immigrant e letras de johnny C. Vargas. A mais emblemática é Possessão, que tem como base uma história real de verdade, com roteiro de Alex Mir e desenhos de Júlio Shimamoto, essa história narra o crime do poço acontecido na casa que existia no terreno de onde seria construído o edifício Joelma. Por conta desse crime no qual um homem matou a mãe e duas irmãs jogando-as num poço que mandara construir, o edifício Joelma foi considerado assombrado muito antes do incêndio.

    Essas histórias ou foram baseadas em sensacionalismos anteriores a Internet ou serviram de base para lendas urbanas anteriores a rede. Circularam em jornais, programas de televisão de qualidade duvidosa mesmo até os anos 1990 e no boca a boca. No caso dos programas de TV, com depoimentos “reais” bem canastrões, dúbios, muito duvidosos e pouco convincentes. Interessante notar como fake news e teorias conspiratórias fascinam as pessoas até os dias de hoje, parece que algumas pessoas querem realmente acreditar. Os extras possuem depoimentos dos autores sobre os acontecimentos que os levaram a fazer as histórias bem como as biografias dos mesmos. Publicado em 2020, formato americano, lombada quadrada, capa cartão, miolo em preto e branco, editado pela Skript.

    Deixe seus comentários com carinho e educação, pois eles serão lidos com carinho e educação. Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “Garimpando em Gibiterias” e clique no botão “Pesquisar”. Ou digite apenas “garimpando” e encontrará títulos a mais em garimpos de eventos.

Boas leituras e bons sonhos, se puder, hahaha!

Rodrigo Rosas Campos



quarta-feira, 23 de setembro de 2026

[Resenha] Devoradores de Estrelas de Andy Weir

    Perdi o filme nos cinemas, fui ler o livro. Não se preocupem, essa resenha não tem spoilers, embora uma análise e uma opinião verdadeiramente embasadas dessa obra exijam que todos os envolvidos na conversa a tenham lido. Mas aqui, é só uma opinião superficial sem spoilers! Não existe uma forma fácil de resenhar este livro e nem de resumi-lo. O livro escrito por Andy Weir é excelente! Weir é quase um Asimov, e isso é um baita elogio.

    Vamos a história: Grace é um biólogo pesquisador que se desaponta com a pesquisa científica acadêmica e passa a ganhar a vida como professor de ciências de crianças numa escola pública dos EUA. Mas ele acorda de um coma induzido em uma nave espacial sem se lembrar de nada disso, nem do que está fazendo ali. Do lado dele há dois cadáveres que não sobreviveram ao coma induzido da viagem.

    Tentando descobrir o que está acontecendo, ele tem flashes de memória. Alguma coisa está acontecendo que ameaça o Sol. Sondas foram mandadas para recolher material entre o Sol e Vênus e as partículas encontradas parecem vivas. Por conta de um artigo que Grace publicara há muito tempo, ele foi colocado no projeto para investigar essa possível forma de vida que devora estrelas e viaja pelo universo.

    Grace confirmou que o material era de fato uma forma de vida e o batizou de astrofágico (não deviria ser astrófago?). Mas a aventura de Grace estava apenas começando. Ele é afastado da escola e colocado num laboratório e quanto mais ele pesquisava, mais ele se tornava a pessoa mais indicada para ir até o sistema da estrela Tao Ceti e descobrir porque essa estrela não é afetada pelos astrofágicos. Ele até treina um astronauta biólogo para ir, mas este morre junto com sua substituta.

    Agora ele está no meio do espaço, na órbita de outra estrela tendo que juntar elementos de memórias, descobrir como pilotar a nave em que se encontra e fazer pesquisas com os astrofágicos naquele sistema estelar. Mas eis que ele descobre que a nave dele não é a única e descobre também que o planeta de seu vizinho inesperado passa pela mesma situação de perigo que a Terra. Agora ele terá que juntar forças com um alienígena cuja forma de vida é baseada em silício, respira amônia e parece uma grande aranha de pedra com cinco braços para desvendar o problema que também afeta Irida.

    Eles precisam se comunicar, ligar as naves e criar sistemas de suporte de vida em conjunto para sobreviverem e pesquisarem. Não sei quais são as diferenças do filme para o livro, li o livro por ter perdido o filme e foram R$99,90 muito bem gastos. Eu sei, assinatura de streaming é mais batata, mas dê uma chance ao livro. Se houver uma biblioteca pública perto de onde você mora, trabalha ou estuda, procure, se não tiver, peça ao bibliotecário chefe.

    Andy Weir é um ótimo escritor, quase tão bom quanto Isaac Asimov mesmo, perdendo por bem pouco (na minha opinião)! Achei que teve algumas barrigas, mas o assunto é espinhoso e, ainda assim, o leitor entende tudo o que é preciso e vai até o fim. A história acontece no espaço com flashbacks na Terra. Os personagens da Terra são muito interessantes, bem escritos, bem construídos e tridimensionais. O alienígena rouba a cena se mostrando bem multifacetado. Por que ainda prefiro Asimov? Gosto pessoal. Concluindo, Devoradores de Estrelas é uma ficção científica pesada da melhor qualidade, publicado aqui no Brasil pela Suma e vale cada centavo.

Boas leituras,

Rodrigo Rosas Campos

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

[Matéria] Super-heróis Made in Brazil, Sim, Eles Existem

Rodrigo Rosas Campos

Introdução

    Não entrarei no mérito acadêmico de que super-heróis são manifestações típicas dos EUA assim como o rock e o jazz mesmo quando feitos por não estadunidenses fora dos EUA. Essa é a mesma discussão sobre o rock brasileiro, o bang-bang italiano, o jazz fora dos EUA e o samba fora do Brasil.

    Essa discussão é linda quando envolve gente que consegue manter uma discussão civilizada, onde os participantes concordam em discordar se for o caso, e que conhecem o assunto de verdade, por livros e não por posts de redes sociais. Em todo o caso, o tema divide opiniões, mas não é o foco aqui. E nem quero comentários a respeito, quem quiser se polarizar que faça isso longe. Com quem eu sei que não discute tudo na base da torcida Fla x Flu, GreNal etc. eu falo isoladamente, de preferência presencialmente. O que importa aqui é que brasileiros escreveram, desenharam e publicaram super-heróis em território nacional. Sigamos a partir daqui:

Um Registro Histórico

    Sim, eles existem e em 2019, o Chiaroscuro Studios lançou o Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros reunindo informações sobre eles em 200 verbetes e 57 releituras gráficas. Em 2022, o arquivo em PDF foi liberado pelo site do Chiaroscuro Studios e serviu como primeira base para este ensaio, uma vez que é mais fácil escrever a partir de um documento que serve como ponto de partida e referência maior do que por informações esparsas, o Chiaroscuro Studios está de parabéns.

    E por que isto é um ensaio e não uma resenha simples? Bom, muita coisa desse livro eu já sabia e sei coisas que não estão nesse livro, mas que quero colocar aqui para complementar. Ou seja, estou usando e complementando as informações desse livro, não dando uma opinião sobre o texto e as releituras gráficas.

    Estes super-heróis nacionais são difíceis de achar. Afinal, muitos são personagens antigos com poucas publicações cada e tiragens bem pequenas. O próprio livro impresso Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros também está difícil de encontrar, pois foi feito por financiamento coletivo com uma tiragem bem reduzida em 2019. É claro que eu não comentei todos os 257 verbetes totais do Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros aqui, mas ao menos procurei dar alguma palhinha sobre alguns mais emblemáticos.

    O Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros possui texto e pesquisa de Franco de Rosa. O autor, além de profissional e pesquisador de quadrinhos, é, ele próprio, um dos criadores de alguns super-heróis brasileiros. Ou seja, o autor da pesquisa participou desse movimento de criação de super-heróis no Brasil. Seu personagem mais famoso é o Ultraboy. Apesar do sucesso do gibi, ele foi uma das muitas surfadas editoriais na onda do sucesso da série de TV japonesa Ultraman. Seguindo essa tendência, Ultrax é uma outra versão brasileira do Ultraman e, justiça seja feita, é a mais diferente de todas. Criado só em 1991 e publicado só em 2001, Ultrax é de Eloir Carlos Nickel.

Muitos São Só Cópias, Sejamos Honestos

    O Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros impresso teve acabamento de luxo, foi lançado por financiamento coletivo na plataforma Catarse e foi caro no seu lançamento. Principalmente se os leitores repararem que muitos desses super-heróis brasileiros lá catalogados não passam de meras cópias oportunistas dos gringos. Isso é fato e contra fatos não há argumentos.

    Assim, Raio Negro é só um Lanterna Verde genérico com o anel de luz negra, antes da luz negra virar modinha; Bola de Fogo é uma cópia brasileira do Tocha-Humana original com uma origem alienígena para não dar muito na vista; Alma de Aço é só mais um robô militar que ganha consciência própria; Audaz, o Demolidor, é só mais um mecha, robô gigante tripulado, anterior as séries japonesas, mas feito com base numa série mexicana que se inspirava em pulps de ficção científica norte-americanos; Fantastic é só um agente secreto que usa um traje no melhor estilo Homem de Ferro; Hydroman é só mais um plágio descarado do Namor; Místyko é uma cópia descarada do Senhor Destino (Doctor Fate) da distinta concorrente.

O Judoka, Cópia ou Substituto Nacional?

    E se o editor brasileiro não pode usar mais um personagem licenciado de fora, ele encomenda um equivalente nacional. O Judoka é um vigilante que luta judô. Criado para ser o substituto nacional do Mestre Judoka, da Chalton, quando este deixou de ser publicado aqui no Brasil pela EBAL (e isso é uma longa história que não cabe aqui). Com o tempo, o Judoka ganha uma parceira, a Judoka. Apesar da criatividade para nomes, a série foi um dos maiores sucessos de super-heróis em quadrinhos no Brasil. Com efeito, nossos Judokas eram brasileiros, com histórias 100% novas e ambientadas no nosso país. Os nossos Judokas (ele e ela) foram criados por Monteiro Filho (artes) e Pedro Anísio (roteiros) em 1969. Essa é uma cópia com originalidade real que merece verdadeiros aplausos! Uma cópia que virou um novo original e o segredo foi uma história nova em uma ambientação nacional. Até hoje é um dos mais famosos títulos dos quadrinhos brasileiros. O Judoka chegou a ter filme, que foi perdido com o tempo.

Capitão 7, o Mais Famoso

    Até mesmo o mais famoso de todos, o Capitão 7, é uma mistura de Flash Gordon com Superman e foi feito como um programa de TV, virando, posteriormente, uma marca de uma famosa fábrica de fantasias para crianças, famosa sobretudo nas décadas de 1980 e 1990. Bom, seja como for, não tem como não falar um pouco mais deste que é o mais famosos de todos os super-heróis brasileiros. Criado para a TV, na antiga rede Record, canal 7, daí o número 7, onde ele era mais um cover do Flash Gordon. Quando transportado para os quadrinhos, virou uma mistura de Superman com Flash Gordon. Seus poderes estavam na roupa, armas e no treinamento que recebeu no Sétimo Planeta. Foi criado por Rubem Biáfora e pelo ator Ayres Campos, sendo que este ficou com os direitos do personagem e abriu a famosa fábrica de fantasias.

    A reimaginação de Eduardo Pansica (lápis e redesign), Júlio Ferreira (arte-final) e Márcio Menyz (cores) mudou a etnia do Capitão 7. Todavia cabe salientar, e isso não está no Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros, que em 1995, Darlei Nunez já havia criado e colocado um novo Capitão 7, afrodescendente, no grupo Comando Justiça como discípulo e sucessor do original em um fanzine (https://hqquadrinhos.blogspot.com/2010/02/capitao-7-by-darlei-nunez-brasil.html).

    Aqui, vale lembrar que, assim como o Capitão 7 começa como um programa de TV, Jerônimo, Flama e alguns outros começam como programas de Rádio, o que mostra que o Brasil tem como uma de suas especialidades as adaptações na contramão, indo no caminho oposto do que geralmente acontece: o normal seria literatura em prosa ou em quadrinhos sendo transportadas para mídias audiovisuais. O Flama é o vigilante criado por Deodato Borges em 1963. De todos os vigilantes brasileiros, ele é o que mais parece uma mistura do Spirit com o Batman.

    Seguindo o sucesso do Capitão 7, a fábrica de brinquedos Estrela criou seu próprio herói para a TV e para os quadrinhos. Em 1959 (indo para os quadrinhos em 1961) surgia o Capitão Estrela. Apesar de ser uma jogada de marketing, suas características sobre-humanas eram explicadas por mutação antes dos X-Men, que só seriam publicados nos EUA em 1963. Por conta de complicações por direitos, o Capitão Estrela nunca mais pôde ser republicado. Fica o registro de que o Capitão Estrela foi um precursor dos super-heróis mutantes e que foi do Brasil, e ele não foi o único precursor brasileiro em seu conceito.

Velta, a Mais Famosa e Outros Precursores Brasileiros

    Nem todos os super-heróis brasileiros foram meras cópias, alguns foram até precursores. Velta é, certamente, a mais famosa hoje. Criada por Emir Ribeiro, teve pouca repercussão em sua criação em fanzines, mas é de 1973, logo, é anterior a Mulher-Hulk da Marvel, além de não estar vinculada a nenhum personagem protagonista masculino anterior.

    O Patrulheiro Fantasma é de 1967, criado por Rubens Cordeiro, também é anterior ao Motoqueiro Fantasma da casa das ideias. Fikom, criado por Fernando Ikoma em 1967, é um personagem herói que transita pelos sonhos, criado muito antes do Sandman de Gaiman e chegou a ser publicado fora do Brasil.

    Garra Cinzenta é na verdade o megavilão da história que não é ambientada no Brasil. Sua iconografia antecede o vilão Caveira Vermelha e o super-herói americano pouco conhecido no Brasil, o Terror Negro. Garra Cinzenta foi criado em 1937 por Francisco Armond (roteiro) e Renato Silva (desenhos), sendo que há suspeitas em torno destes créditos, o que não vem ao caso agora.

    Golden Guitar é um super-herói baseado no sucesso da Jovem Guarda. Criado por Rivaldo A. Macedo, Rubens Cordeiro, A. Torres e Apa (Aparecido Benedito da Silva) em 1967. Sua arma é sua guitarra elétrica dourada modificada. É um precursor, anterior ao Zé da Guitarra (Punk Rock) do desenho animado norte-americano Escola de Heróis (Hero High) de 1981. Zodiako, um personagem cósmico de 1974 criado por Jayme Cortez. Apesar de sua história ter como base o zodíaco e a astrologia, em termos de escala de poder, é um precursor do Doutor Manhattan de Watchmen.

    Quebra Queixo não é bem um precursor, mas é o representante do cyberpunk mais famoso do Brasil nos quadrinhos. Criado em 1983 por Marcelo Campos, traz um futuro distópico tipicamente brasileiro. Um tapa na cara para quem esquece que há política até em histórias de super-heróis.

    Justiça seja feita, o próprio Capitão 7 tem elementos de inovação: uma criança é levada para outro planeta, recebe treinamento e conhecimentos superiores e uma roupa que amplia suas capacidades. Lembra algum super sentai japonês? Pois é, e o Capitão 7 é de 1954.

    Entretanto, apesar de alguns heróis precursores em temáticas e poderes, não podemos deixar de notar que a grande maioria não passou de cópias para tirar proveito de sucessos, tanto dos quadrinhos quanto de séries de TV estrangeiras. São muitas as cópias brasileiras de Tarzan (com versões femininas inclusive), Fantasma, Conan e, com já visto, até do Ultraman.

    Falando em covers do Fantasma, o primeiro Escorpião é a cópia brasileira mais famosa dele. Surge em 1966 por autoria de Wilson Fernandes. O Escorpião 2 foi uma releitura do primeiro, mais super e urbana, uma vez que o primeiro fora processado pela empresa que detinha os direitos de distribuição do Fantasma no Brasil. Outros personagens de selva são: o Morcego, este é baseado numa lenda real dos nativos da Amazônia. Criado para ser uma das muitas cópias do Fantasma, este ao menos se baseia numa lenda e se livra de processos. Foi criado por Wilson Fernandes em 1974; Morena Flor, mais uma entre muitas versões femininas de Tarzan, uma garota da selva típica. Foi criada por André Le Blanc (roteiro e desenhos) em 1947.

Sinais dos Tempos: Estes Seriam Inapropriados Para os Dias de Hoje

    Alguns dos super-heróis brasileiros são deveras problemáticos para nossos dias. Até mesmo suas republicações simples seriam bem problematizadas. Vamos a eles: o Gênio, ou o Gênio do Calhambeque, personagem criado sob encomenda na onda do “o petróleo é nosso.”. Surge para ser didático em relação ao petróleo e seus benefícios e vem de um escapamento de um calhambeque como se fosse um gênio típico das 1001 noites. Com a poluição do mundo de hoje, aquecimento global e a busca por matrizes energéticas limpas, duvido que seria publicado hoje.

    Outro herói que se tornou bem problemático foi o Homem-Fera. Seu visual lembra o Pantera Negra, seu nome o mutante Fera dos X-Men, mas não tem nada a ver com nenhum dos conceitos anteriores. Domador de circo, tem uma pantera-negra de estimação que combate o crime com ele. Eram tempos em que circos podiam ter animais selvagens nos números e que isso era normalizado. Não a toa, sua releitura no Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros segue um estilo anos 1990, pouco antes da lei que proibiu animais em circos no Brasil.

    Homem Justo, um vigilante com um cinto tecnológico alienígena que lhe dava superpoderes, tendo em vista a época de sua publicação original e as mudanças feitas em sua história, é muito provável que tenha tido problemas com a censura da ditadura na época. Vigilantes e espiões genéricos são sempre de gosto duvidoso por lembrarem milícias em geral e isso não dá para negar: Homem de Preto, Fantasma Negro, o Gato, Superargo entre outros.

Concluindo

    É fato que nossas eternas e crônicas crises econômicas atrapalham e até mesmo abortaram o desenvolvimento de séries maiores e que muitos personagens recorrentes foram interrompidos por isso. Mas não acredito que nenhum deles seria mantido em reboots eternos. Autores brasileiros de quadrinhos e a maioria dos leitores daqui não estão dispostos a assinar contratos vitalícios e muitos desses personagens só possuem algum apelo quando produzidos pelo(s) autor(es) original(nais).

    O fã típico de super-herói, que se apega ao personagem (a marca, ao selo editorial, universo compartilhado, cronologia etc.) mais do que as equipes criativas específicas (os profissionais que realmente fazem o personagem acontecer), é só uma minoria barulhenta, tanto aqui no Brasil, quanto nos EUA. Tanto é verdade, que esse público parou de se renovar e está literalmente fadado a morrer de velhice, como todos nós. Com efeito, hoje, o público de super-heróis é de cinema, séries de TV, videogames e RPGs. Um público que não exige que o novo ator de 007 refaça todos os filmes anteriores, um público mais disposto a aceitar diferenças em relação ao que veio antes.

    Fora que os quadrinhos brasileiros encontram mais espaço em sátiras (principalmente políticas), terror e infantil e isso vai das preferências e facilidades dos próprios autores brasileiros. Com efeito, a maioria dos super-heróis produzidos aqui são paródias. Entre essas paródias originais, um destaque especial vai para o Capitão Cipó de 1968 criado pelo saudoso Daniel Azulay, muito antes do Overman da Laerte.

    E esses personagens, super-heróis brasileiros, têm republicações? Sim, eles tem republicações, todas de forma independente ou por pequenas editoras, procure sobretudo as gibiterias virtuais; algumas dessas republicações saem pelo advento do financiamento coletivo no Brasil. Alguns deles têm publicações novas? Sim e com encontros até, também por financiamentos coletivos. A maioria dos encontros são de gosto duvidoso, bem verdade, baixe as expectativas, divirta-se e seja feliz. A saga dos super-heróis brasileiros continuou? Sim. Nos verbetes, o Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros tem personagens surgidos até no ano 2000 em diante. Há novos super-heróis brasileiros autorais surgindo até hoje, o tempo todo. Destaco As Empoderadas de Germana Viana de 2015; Esquadrão Vitória de Gico Galli em 2017 e 2020; e Dias de Horror de Danilo Beyruth e Chiaroscuro Studios em 2017. Com efeito, estas três histórias são só algumas das mais atuais e as melhores ao meu ver.

Para Saber Mais

    Adquiri uma versão em PDF do Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros em 19/05/2022 disponível no site da Chiaroscuro Studios. Não sei a empresa mantém a promoção do PDF grátis. Já a versão física do livro, infelizmente, você só o achará usado. Ele pode ser republicado fisicamente? Dificilmente, não alimente esperanças. Em todo caso, acompanhe a Chiaroscuro Studios tanto pelo site oficial, pelas redes sociais deles e pelo Catarse. Vai que ele seja republicado para ser uma recompensa futura; improvável, mas não impossível.


    ROSA, Franco de.  Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros.  São Paulo: Chiaroscuro Studios, 2019.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Resenha Compacta de Histórias Assustadoras Para Contar à Noite Com 10 Contos de Terror e do Horror

    Já fiz uma resenha completa desse livro comentando conto a conto, se você quiser, clique aqui. Lançado aqui no Brasil pela editora Pipoca e Nanquim, Histórias Assustadoras Para Contar à Noite é uma antologia de contos de terror publicada originalmente em 2019 pelo editor inglês Stephen Jones e ricamente ilustrada por Randy Broecker, no melhor estilo dos quadrinhos da EC, com o título original de Terrifying Tales to Tell at Night: 10 Scary Stories to Give You Nightmares!


    A proposta do livro é exatamente a que está no título, histórias de terror para entreter crianças antes de dormir a luz de uma lanterna embaixo do rosto do narrador ou para serem contadas por adolescentes ao redor de uma fogueira em um acampamento. São histórias bem inteligentes. Oito destes textos foram originalmente publicados em revistas literárias, mas o livro também conta com dois contos até então inéditos feitos para ele em 2019, A Dama do Lado e A Química dos Fantasmas.

    Os autores são Neil Gaiman, R. Chetwynd-Hayes, Lynda E. Rucker, Stephen King, Ramsey Campbell, Manly Wade Wellman, Robert Shearman, Lisa Morton, Michael Marshall Smith e Charles L. Grant. Outro ponto a ser lembrado com esse tipo de publicação é que estilos diferentes de escrita podem influenciar a velocidade de leitura dos leitores de acordo com os respectivos gostos pessoais. Não se assustem se demorarem mais em um conto do que em outro, isto não está vinculado só ao número de páginas, mas ao quanto o(a) autor(a) te prendeu na história mais do que o(a) anterior ou o(a) próximo(a).

    Aqui no Brasil, Neil Gaiman e Stephen King foram os grandes chamarizes de leitores. Lá fora, Stephen Jones, o editor original inglês, é famoso por editar livros de terror e horror na Inglaterra a ponto de suas coletâneas lá venderem pelo nome dele na capa. Ele é um dos poucos editores famosos por serem editores e prima por contos bem escritos, e quando digo “bem escritos” isso não significa que todos os leitores gostarão de tudo; gosto é pessoal. “Bem escrito” significa que, mesmo que você não goste de uma história ou outra, dificilmente ela será desagradável ou arrastada o bastante para que você queira abandonar a leitura no meio.

    A edição é capa dura, bem produzida, padrão Pipoca e Nanquim, feita para durar. Lembra os livros do saudoso Circulo do Livro. Poderia ter uma versão mais econômica? Sim, afinal as histórias são formadoras de público. Poderia ser mais barata ainda tirando as ilustrações fantásticas de Randy Broecker? Por favor, não. Entre ilustrações gerais e mais específicas, a melhor foi a de página inteira para A Dama de Lado. Agora vamos para as perguntas que não querem calar: Alguns contos fazem parte de séries maiores? Não. Todos os contos são independentes e autocontidos. Eu gostei do livro? Sim. Dos 10 contos, gostei de 8, então achei o livro muito bom.

    Qual conto que mais gostei? O Sorriso da Vovó foi escrito por Robert Shearman, a mais aterradora história do livro. Editores, mais histórias dele, por favor. Mas nesse caso, eu não seria justo de destacasse apenas um dentre os que mais gostei. O segundo que mais gostei foi A Química dos Fantasmas, escrito por Lisa Morton. Me fez gostar de personagens que eu normalmente não gostaria e me fez gostar de aprender coisas interessantes sobre química que os professores escolares negligenciam. Quero mais Lisa Morton publicada no Brasil. Menção honrosa para O Homem Que Desenhava Gatos de Michael Marshall Smith, também quero ler mais histórias dele.

    Qual conto eu menos gostei? A Chaminé de Ramsey Campbell possui uma narração em primeira pessoa de um personagem enfadonho e prolixo. Poderia ter sido cortado em bem mais que a metade. Excesso de detalhes desnecessários não é amedrontador, é entediante. Segue a tradição de Edgar Allan Poe em que você pode questionar se os fantasmas existem ou se são só criações das imaginações perturbadas dos personagens, mas sem um estilo poderoso, só uma cópia barata e desonesta. Neste conto, o autor, Ramsey Campbell, não passa de um embuste.

    Vale o alto preço (mais o eventual frete)? Essa é uma pergunta com várias respostas: pela qualidade gráfica, sim. Se você gosta de terror e horror em geral, sim. Se você já é fã de um ou mais autores presentes no livro, sim, afinal, o único conto que já tinha sido publicado por aqui, que eu saiba, foi o do King num livro só dele. Se você quer experimentar vários autores ao mesmo tempo, sim. Vale ressaltar aqui que: parte dos contos e dos autores, apesar dos dois mais famosos, era inédita no Brasil.

    Há versão digital disponível? Sim, mais barata. Não sei qual é o preço dele hoje, afinal, a editora Pipoca e Nanquim trabalha prioritariamente com a Amazon e esta tem promoções o tempo todo, no final, o preço pode variar de acordo com a data em que você chegou aqui.

Boas leituras!? É um livro de terror e horror, bons sustos e pesadelos, hahahahaha!

Rodrigo Rosas Campos

Rabiscos #192 - Romantismo?! por Rodrigo Rosas Campos

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