quinta-feira, 12 de março de 2026

Garimpando Em Gibiterias: Gatão de Meia Idade 1 de Miguel Paiva

 

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    O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal como livros clássicos. Os editores de quadrinhos nacionais são bem imediatistas e até mesmo obras como Fradim, Watchmen, Piratas do Tietê e Maus ficam difíceis de encontrar de tempos em tempos. A série “Garimpando em Gibiterias” fala de quadrinhos que valem a pena “garimpar” em gibiterias, sebos, estoques antigos de livrarias virtuais, feiras de livros e, se a grana estiver muito curta, em bibliotecas públicas. Sim, existem quadrinhos em bibliotecas públicas, é só procurar.

    A pedra garimpada de hoje é Gatão de Meia Idade 1 de Miguel Paiva, texto e desenhos, pela editora Objetiva de 1995, achada em uma feira do livro por R$ 10,00.

    Na década de 1990, Miguel Paiva bombava no Jornal do Brasil com 3 personagens, na revista de Domingo do Jornal do Brasil, havia a Radical Chic, sua personagem mais famosa, publicada semanalmente na última página da revista em histórias de uma única página inteira. Nas tiras do JB, ele dividia com Luis Fernando Veríssimo a adaptação de Ed Mort para os quadrinhos.

    Mas o sucesso da Radical levou o autor a criar mais dois personagens e, naquele mesmo universo, surgiram O Gatão de Meia Idade e Chiquinha. Esta resenha é sobre o primeiro livro compilando as primeiras tiras do Gatão de Meia Idade. Enquanto livro, Gatão de Meia Idade 1 não tardou a ser publicado, uma vez que o sucesso da Radical o impulsionou e este primeiro livro já foi feito em 1995, praticamente no mesmo período que as tiras originais saiam e que sua sequência continuava na seção de tiras do JB. Chiquinha não tardaria a chegar.

    Mas, para o desespero de alguns leitores novos, Gatão de Meia Idade 1 não possui nenhum tipo de extra, nem mesmo um prefacio ou posfácio do autor ou do editor, nada além das próprias tiras. Foi um livro lançado no calor do contexto em que foi produzido, não havia muito o que falar a mais sobre as tiras, seria redundante. Minto, tem um texto na contracapa sem assinatura. Um texto que pode ser encarado como uma sinopse oficial bem-feita (querendo ler, é só clicar na imagem para ampliá-la).

    Não tem como falar de tiras uma a uma sem dar spoilers, são tiras, mas o Gatão de Meia Idade é um sujeito divorciado, com uma filha adolescente as voltas com uma nova vida de solteiro e tentando novas relações com mulheres, as vezes consegue, as vezes não, as vezes é bom, as vezes não, seguindo a vida e tendo que se equilibrar neste contexto. Óbvio que, tendo uma filha adolescente, também precisa manter um relacionamento cordial com sua ex-esposa.

    Ironia, sarcasmo e muita reflexão crítica ácida sobre os costumes de nossa sociedade que levam homens e mulheres a terem perspectivas inalcançáveis em relação aos relacionamentos a dois. O modo como somos criados e que induzem a muitas diferenças artificiais entre os sexos é abordado nesse livro de forma inteligente e perspicaz.

    Em pleno 1995, Miguel Paiva se mostrou a frente de seu tempo usando humor para falar da sociedade da perspectiva de um divorciado mulherengo, um gatão de meia idade, com todas as suas inseguranças e medos em relação aos seus relacionamentos amorosos.

    Deixe seus comentários com carinho e educação, pois eles serão lidos com carinho e educação.

    Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “Garimpando em Gibiterias” e clique no botão “Pesquisar”. Ou digite apenas “garimpando” e encontrará títulos a mais em garimpos de eventos.

    Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


quarta-feira, 11 de março de 2026

[Resenha] Setembro: Quando Estivemos Aqui de André Freitas e Samuel Bono

    São Paulo, Praça da Sé, garotos de rua e mendigos começam a desaparecer enquanto as autoridades fazem vista grossa. Pedro, garoto de rua que vê seus amigos desaparecem, também conhecido como Pastel, chora a perda de seu cachorro. As coisas se complicam quando Pastel descobre e testemunha a ação de uma menina vampira nos arredores da praça. Ao mesmo tempo, Bicudo, o cachorro do livreiro dono de um sebo local começa a acompanhar Pastel enquanto ele faz uma inusitada amizade com Kugatsu, a menina vampira. Será essa memina vampira a causa dos desaparecimentos ou ela será acusada para acobertar os verdadeiros culpados?

    Setembro: Quando Estivemos Aqui foi escrito por André Freitas e desenhado por Samuel Bono, fala sobre os invisíveis da cidade de São Paulo; moradores de rua, crianças e adultos, e suas relações com padres, religiosos, policiais e pequenos comerciantes dos arredores de onde vivem. Relações essas que são, na maioria das vezes, bem conflituosas e ásperas.

    A leitura avança na medida em que o(a) leitor(a) se pergunta: quem está matando os garotos de rua? Será Kugatsu realmente inocente? Conseguirá Pastel descobrir o que aconteceu aos seus amigos desaparecidos? Que assuntos um padre pode ter com um vampiro? A polícia acreditará em vampiros? A trama tem 114 páginas de quadrinhos, mas comentá-la melhor é dar spoilers. O que pode ser dito é que o texto é contundente ao mostrar que os seres humanos são monstros maiores que qualquer ser sobrenatural seria e os desenhos são muito bem executados e expressivos.

    Setembro: Quando Estivemos Aqui tem formato americano, capa cartão, lombada quadrada, R$50,00 (mais eventual frete) no site da Zapata Edições, miolo preto e branco, publicado pela Zapata Edições e co-produzido pela Yes Cabrita. Vale cada centavo! Uma história de terror surpreendente a cada página.

    Boas leituras e, se puder, bons sonhos, hahahahaha!

    Rodrigo Rosas Campos


terça-feira, 10 de março de 2026

[Resenha] Homem-Grilo: O Acelerador Genético, A Volta do Herói Grilado por Cadu Simões, Fred Hildebrand e Daniel Esteves


    Neste novo volume da série do Homem-Grilo pela Zapata Edições, temos duas histórias inéditas e completas: O Acelerador Genético com texto de Cadu Simões e desenhos de Fred Hildebrand; e Homem-Grilo no Griloverso com texto de Daniel Esteves e desenhos de Fred Hildebrand. Duas histórias recheadas de humor parodiando os quadrinhos de super-heróis com um jeitinho bem brasileiro.

    Em O Acelerador Genético, alunos desaparecem do campus universitário e um cientista é sequestrado por uma misteriosa criatura grilo. O Homem Grilo se junta a Garota Cri-Cri para desvendar esse mistério e, no processo, descobrir a origem do grilo radioativo que deu poderes a ele e a Garota Cri-Cri. Essa é a primeira vez que a origem do Homem-Grilo é mostrada em quadrinhos.

    Em Homem-Grilo no Griloverso, o Doutor Dogueiro pretende ser o único a vender cachorro quente em Osasco. Porém, se Osasco deixar de ser a capital do cachorro quente do Brasil em um único universo, todo o multiverso e toda a realidade entrarão em colapso; é o efeito borboleta em versão hot-dog.

    Eis que nosso herói é convocado pela Equipe do Multiverso Grilo para impedir tal ruptura em todas as realidades. Nesta equipe estão variantes de pessoas grilo de vários universos, incluindo a Mulher-Grilo, a líder, e uma variante dele mesmo mais experiente e que já aprendeu a usar todos os poderes; isso mostra que sempre acompanharemos a versão mais noob e apatetada possível do Homem-Grilo em suas histórias mais contemporâneas.

    Mesmo sendo paródias rasgadas, escrachadas e sinceras dos quadrinhos de super-heróis, os roteiros de Simões e Esteves superam em muito as atuais publicações da distinta concorrente(DC) e da plantação(Marvel). Fred Hildebrand desenha, arte-finaliza e colore a edição de modo a enfatizar a graça nos textos dos roteiristas, mostrando que o Homem-Grilo até sabe fazer pose, mas a perde rapidinho pelo seu medo de barata. Homem-Grilo: Acelerador Genético é em cores, lombada quadrada, capa cartão, formato paraguaio, preço R$ 50,00 (mais eventual frete) no site da Zapata Edições. E o melhor, pode ser lido por todas as idades!

    Sempre lembrando que as histórias desse volume são inéditas e completas, você não precisa ler absolutamente nada nem anterior, nem posterior a esta edição. Ao contrário da plantação e da distinta concorrente, Cadu Simões, os demais escritores, os desenhistas do Homem-Grilo e a Zapata Edições respeitam seu público leitor. É um quadrinho indicado para quem nunca leu quadrinhos, para quem gosta de quadrinhos em geral e para quem gosta de super-heróis particularmente. Um ótimo presente para todas as idades. E se a grana estiver realmente curta, as histórias do Homem-Grilo e sua turma podem ser lidas de graça no site oficial do Homem-Grilo.

    Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos

segunda-feira, 9 de março de 2026

[Resenha] São Paulo dos Mortos V: Daniel Esteves e Vários Artistas Voltam Para Uma São Paulo Infestada de Zumbis


     O quinto e mais novo exemplar da série São Paulo dos Mortos, escrito por Daniel Esteves, traz 3 histórias inéditas e completas nessa São Paulo pós apocalíptica infestada de zumbis. E antes que alguém pergunte, não é preciso ler as anteriores para entender essas novas histórias, isso é respeito para com os leitores! Lembrando que todas as histórias são escritas por Daniel Esteves, vamos agora falar das histórias:

    Diário do Fim do Mundo tem desenhos de Kris Zullo e trata de um jornal distribuído na São Paulo dos mortos por um veterano jornalista, Vlad, e sua intrépida assistente, Deborah. Eles improvisam, escrevem, editam, imprimem e distribuem um jornal impresso como dá, para que informações de qualidade cheguem a um maior número de vivos que podem escapar da pandemia zumbi e dos próprios zumbis. Mas, no vácuo de poder legal e institucional, vivos mal-intencionados ganham poderes políticos reais nesse novo mundo caótico. A última notícia publicada pelo jornal irritou gente poderosa o suficiente para Deborah perceber fogo na redação do jornal e partir em disparada para salvar Vlad desse incêndio. É um conto, se eu falar só um pouco a mais, entrego o final e o meio. É a história da capa e é a melhor da edição.

    Amor, Drone e Cigarros tem desenhos e arte-final de Carlos Gritti e esboços de Samuel Bono. Um stalker usa um drone para espionar uma garota que se sente visivelmente incomodada com a situação. Um dia, em vez de tentar derrubar o drone, a garota resolve colar um bilhete na máquina com durex. O stalker entende este gesto como um gesto de amor e sai de sua casa para se encontrar com a garota. Mas estamos num mundo de zumbis, tudo o que não está certo sempre pode dar ainda mais errado.

    Gibis São Um Ótimo Remédio tem desenhos de Fred Hildebrand e traz de volta o Morto Boy. Nessa história, nosso simpático moto boy do fim do mundo precisa conseguir um remédio com uma mulher conhecida como a Farmacêutica, que curte mangás e quer uma edição rara que nosso herói não tem. Assim sendo, ela propõe que ele a leve na garupa para uma das gibiterias da cidade. Será que ele conseguirá o mangá raro que é o preço do remédio para o tiozinho diabético?

    A parte gráfica e a narrativa gráfica delas são igualmente excelentes, minha predileção pela primeira história (que é o destaque da capa) se deu pelo texto. Cada desenhista imprime um traço e um estilo diferente, mas tudo se conversa. Em todas as histórias, a São Paulo dos mortos é suja e os mortos-vivos não são as únicas ameaças aos protagonistas.

    Como já dito, são 3 histórias inéditas e completas, de modo que a leitura dos anteriores não é obrigatória. São Paulo dos Mortos V tem capa cartão, lombada canoa, miolo em preto e branco, R$25,00 (mais eventual frete) no site da Zapata Edições. É uma excelente pedida para quem gosta de quadrinhos de modo geral, terror e histórias de mortos-vivos mais especificamente.

    É São Paulo, é Brasil e é o jeito de falar dos paulistas ao contar esse tipo de história; isso é que dá um diferencial. Só não entendi porque grawlixes substituíram os palavrões, afinal, as maiores violências desse tipo de história não são verbais. Enfim, caso sua criança não tenha medo, ela verá violência, terror e horror, mas não palavrões. Indicado para todas as idades? Veja bem, é terror...

    Boas leituras e, se puder, bons sonhos, hahahahahahaha!

    Rodrigo Rosas Campos

segunda-feira, 2 de março de 2026

[Resenha] Coisas Frágeis Volumes 1 e 2 de Neil Gaiman


    Antes de mais nada, sei que o autor se tornou polêmico, mas a vida da pessoa não afeta sua obra e um livro não deveria pagar pelos pecados do autor da mesma forma que filhos não deveriam pagar pelos pecados dos pais. Coisas Frágeis é o livro de contos de Neil Gaiman conhecido no Brasil por ter o conto no universo de Matrix e um encontro de Sherlock Holmes com Cthulhu, ou, ao menos, no universo de Cthulhu.

    Você, provavelmente, achou essa resenha procurando saber sobre estes dois contos específicos, falarei deles. Adianto que ambos estão no volume 1 do livro. Coisas Frágeis foi publicado em dois volumes no Brasil pela editora Conrad em 2010. Comprei ambos em um sebo por R$20,00 depois de ter chorado um desconto e o volume 1 está caindo aos pedaços. Tendo em vista que os preços atuais de livros de bolso estão mais caros que R$20,00, fiquei feliz.

    Gaiman escreveu introduções nos dois volumes do livro falando sobre os bastidores dos contos, de cada conto. Isso acontece porque os contos que formam Coisas Frágeis foram encomendados para o Gaiman depois da fama com Sandman pela DC/Vertigo. Tendo em vista uma parte geral comum desta introdução nos dois volumes brasileiros, creio que o livro fora publicado originalmente um um volume único e a Conrad o dividiu em dois. Acho que há outra edição brasileira de outra editora em volume único. Estes textos foram originalmente publicados em coletâneas de diferentes autores em livros temáticos ou revistas literárias. Não espere uma temática única entre os contos ou grandes ligações entre eles, isso até existe em alguns casos, mas não é comum. O que mais une estes textos é o mesmo autor.

    Mas vou começar a falar das histórias que provavelmente trouxeram você aqui. Não te julgo, comprei os volumes por elas também. Golias, que é a história no mundo do filme Matrix, foi feita para ser publicada no site oficial do primeiro filme antes mesmo da estreia do mesmo. E quem diria, por exemplo, que dois editores teriam a ideia de publicar um livro com diferentes visões de como Sherlock Holmes poderia investigar os estranhos fenômenos do horror cósmico? Mas isso aconteceu e Gaiman foi um dos autores convidados a dar sua interpretação, o conto Um Estudo Em Esmeralda.

    Para quem gosta de surpresas, sugiro evitar ler as introduções conto a conto. Alguns destes textos introdutórios sobre os contos específicos dão spoilers ou pistas para os mais atentos. Por outro lado, algumas histórias estão ligadas a histórias maiores e Gaiman, a meu ver, não conseguiu fazer de alguns destes contos histórias autossuficientes, o que pode fazer alguns leitores se perderem. Por esse motivo, decidi falar primeiro sobre Golias, o conto no mundo de Matrix.

    Golias narra a história de um homem alto que descobre a realidade por trás da matrix, mas ele a defende, afinal, este planeta Terra dividido entre a realidade virtual brilhante e o mundo real cavernoso e escuro é tudo o que ele conhece como lar e vida. Em acordos que faz com o computador, nosso protagonista negocia com a máquina uma realidade melhor para ele, mesmo sabendo que é, em parte, manipulado pela própria máquina. Mas, para realizar alguns desejos do nosso herói, a Matrix cobra um preço.

    Golias é uma história curta, não quero estragá-la, mas é uma ótima reflexão sobre se há ou não livre arbítrio e, em caso de existir livre arbítrio, quais seriam seus limites. A trama é uma reflexão sobre o que pode ser negociado, mudado e o que é inevitável nas vidas humanas. Este conto foi encomendado antes da estreia do filme. Gaiman leu o roteiro do filme para entender o mundo da Matrix e Golias foi publicado originalmente no site oficial do primeiro filme antes mesmo da estreia do primeiro filme no cinema. Alerta! Quem não viu ao menos o primeiro filme não entenderá nada. Golias é uma história oficial (cânone, no termo modinha) de Matrix.

    Um Estudo em Esmeralda é a versão de Gaiman de como Sherlock Holmes se encontraria com o horror cósmico. Como já disse, este conto foi encomendado para ser publicado originalmente na coletânea temática de vários autores intitulada “Shadows Over Baker Street”, “Sombras Sobre a Rua Baker” em uma tradução literal. Este livro trouxe várias visões sobre como o maior detetive da literatura investigaria casos envolvendo os mitos de Cthulhu. O texto de Gaiman, nesse caso, é autossuficiente, mas aqui entra uma advertência:

    Para juntar Sherlock Holmes e o horror cósmico num mesmo mudo, Gaiman subverte tanto as tramas originais de Arthur C. Doyle quanto as de H. P. Lovecraft, ou seja, desagradará puristas de ambos os autores originais. É uma história surpreendente, bem escrita, excelente, com uma visão única e ousada do horror cósmico de Lovecraft, mas ir além daqui é dar spoilers. Esta é para ser lida por leitores que possuem uma mente aberta em relação aos personagens de que gostam. Lembrando, se você é purista, fique longe dessa trama. Ao meu ver, este conto sozinho valeu o preço do livro inteiro. De fato, é de admirar que a Pipoca & Nanquim não tenha publicado “Shadows Over Baker Street” no Brasil depois de Histórias Assustadoras Para Contar a Noite e O Grande Livro dos Vampiros.

    Agora que já falei sobre os dois contos que deixaram este livro conhecido, darei a minha impressão geral dos dois volumes e falarei com destaque apenas dos textos de que mais gostei. Se você só queria saber do conto de Sherlock no mundo de Cthulhu e do conto da Matrix escritos por Neil Gaiman, pode ir embora, sem culpa, eu te entendo. Como já disse, comprei estes dois volumes por estes dois contos que estão no volume 1. O sebo onde comprei, não queria vendê-los separados. Boas leituras!

    Ficou aí?! Vamos continuar: como não tenho medo de eventuais spoilers, afinal eu gosto de Nélson Rodrigues, de tragédias gregas, de Shakespeare e de informações de bastidores, li as introduções. Importante ressaltar que, em Coisas Frágeis, Gaiman reuniu contos que já haviam sido publicados antes, ou na Inglaterra ou nos EUA, em outros livros de coletâneas ou em revistas literárias.

    Fico maravilhado como o quanto Neil Gaiman escreve melhor quando escreve menos, detesto verborragia, gosto quando as palavras mostram ideias e narrativas da forma mais econômica possível. Neil Gaiman provou, nesse livro, que quando ele quer, ele não é sonífero como em Sandman. Sim, não gosto de Sandman, me julguem! Entretanto, apesar de o primeiro volume ser mais regular e eu ter lido tudo de bom grado, o segundo volume se mostrou bem irregular e eu o abandonei.

    Continuando no volume 1, Lembranças e Tesouros é autossuficiente, mas trata-se de um conto de uma série maior de crimes e é bem adulta mesmo. Contém violência pesada, física e psicológica. Smith é um capanga faz tudo de um homem verdadeiramente muito rico, tão rico que fica longe dos holofotes das colunas sociais. Neste conto, Smith relembra a sua vida do orfanato até se tornar o capanga de alto nível deste homem muito rico. Uma vida marcada por abusos de todo o tipo que o levaram a perder quase completamente a noção de culpa. No mais, seriam spoilers. Essa é uma história para maiores de 18 anos mesmo.

    O Problema de Susan é sobre o destino de Susan nas Crônicas de Nárnia. Ler este conto sem ter lido todas as crônicas de Narnia é tomar spoilers. Basicamente, Gaiman escreve o epílogo do último livro que o autor original nunca escreveu. Assim como o conto de Sherlock no mundo de Cthulhu, este pode desagradar os puristas, mas, neste caso, só alguns muito poucos. Amei. Li as Crônicas de Nárnia, gosto da série Sherlock, dos mitos de Cthulhu, mas tenho a consciência de que ficção não é religião, quer cânone, vá a uma igreja.

    Os Fatos no Caso da Partida da Senhorita Finch é sobre um casal que pede ajuda a um amigo (o narrador em primeira pessoa). Eles pretendem sair para um circo experimental, mas a mulher deve favores à família da senhorita Finch e a senhorita os acompanhará. Assim, eles chamam o narrador para que a tal senhorita não fique segurando vela. Mas ela é insuportável e só fala de seu trabalho.

    Chegando no local do circo experimental, todos os artistas estão vestidos como seres sobrenaturais, mas o espetáculo começa e com ele as dúvidas sobre se as fantasias de vampiros, lobisomens e monstros em geral são realmente fantasias. Ir além daqui é realmente dar spoilers. Dica: não leia a introdução específica desse conto. Como Conversar Com Garotas Em Festas é um conto, não é um manual. Falar sobre esta história tendo em vista o seu tamanho e o porquê que ela tem graça é entregar tudo. O Pássaro do Sol é o conto que Gaiman fez para dar de presente de aniversário a uma de suas filhas. Achei sem sal, mas não o abandonei.

    O Monarca do Vale é um conto de Deuses Americanos que faz crossover com o mundo de crimes realistas de Smith. Da mistura desses dois mundos, o realismo foi obliterado pela fantasia de Deuses Americanos. Aviso: este conto é como um epílogo/continuação de Deuses Americanos, logo, traz spoilers.

    O Monarca do Vale confirma que tudo o que Gaiman escreve por conta própria está em um mesmo universo, o que não é tão comum quanto as pessoas pensam; a maioria dos escritores, mesmo quando repetem nomes, não costuma repetir exatamente os mesmos personagens. Mesmo não tendo gostado tanto assim do volume 1, não abandonei nenhuma de suas histórias, ou seja, o primeiro volume é bem escrito, regular e garante um bom entretenimento. O volume 1 como um todo não me arrebatou nem me repeliu.

    Agora o volume 2: este segundo volume também traz poemas e de nada vale comentar poemas para quem não os leu. Nem tentarei comentar os poemas aqui. Não li as versões originais do inglês, portanto não posso culpar quem os traduziu, mas não gostei do primeiro, abandonei o segundo e nem lerei a partir do terceiro. Dito isso, mesmo que eu não tivesse desistido da maioria dos contos do volume 2, Coisas Frágeis (o livro completo) já entra na minha lista de livros (leituras) abandonados(as).

    O Cascalho da Ladeira da Memória é bom, mas seu início é desanimador, insista que é um conto curto. Como um todo o volume 2 é bem mais irregular que o primeiro. Tem contos muito bons e instigantes, como Os Outros e No Final, mas também tem os verborrágicos que, de tão longos, se tornam chatos e previsíveis.

    Ouro destaque é sobre o taró de vampiro, este ficou incompleto, Gaiman não escreveu sobre todos os arcanos e, dos escritos, alguns são geniais e outros insossos. Um conto dividido em contos menores que reflete o macro de Coisas Frágeis, um livro com contos extremamente inspirados e com outros extremamente protocolares. Desisti de vez do livro depois de ler esse taró de vampiros que nem o autor terminou e publicou inacabado mesmo.

    Lembrando que se não citei o título de algum conto aqui, é porque não o achei grande coisa nem para falar mal, falar mal seria dar nota a algo que deve ser completamente indiferente. Deixem seus comentários com carinho e educação, pois eles serão lidos com carinho e educação. Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

[Resenha] Bito Zine 1 e 2: Soneca e Graminha Por Marcel Ibaldo e Marcelli Ibaldo


Fortemente aconselhável para todas as idades!


    Eis que o universo da Tê Rex não para de se expandir. Nessa inauguração da linha maior chamada Tê Rexverso, agora temos dos zines em formato He-Man do mascote da Tê Rex, Bito, um trilobita. Os textos são de Marcel Ibaldo e os desenhos são de Marcelli Ibaldo. O preço de cada uma dessas edições especiais é de R$ 8,00 (mais o eventual frete), com os autores nas redes sociais, Instagram, inclusive.

    Com o traço delicado de Marcelli e os textos singelos de Marcel, vemos, da perspectiva de u simpático bichinho de estimação a importância de uma boa soneca, no primeiro livrinho, e de uma boa graminha, no segundo livrinho. Estes volumes são altamente indicados para crianças em processo de alfabetização, mas adultos pais e mães de pets vão amar também.

    Como se tratam de dois poemas curtinhos, falar muito é dar spoilers e todos no universo da Tê Rex tem tanto medo de spoilers quanto de meteoros.

Boas leituras!

Rodrigo Rosas Campos

Garimpando Em Gibiterias: Gatão de Meia Idade 1 de Miguel Paiva

  +18     O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal co...