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O mercado editorial no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Por esse motivo, os eventos no Brasil, por menores que sejam, precisam ser estimulados e divulgados. São momentos em que leitores e criadores (escritores e desenhistas) podem interagir sem intermediários. A série “Garimpando No Evento...” fala de edições que foram compradas diretamente com os criativos nos eventos. Uma vez me perguntaram como ficar sabendo desses eventos, simples: acompanhem e sigam seus autores e suas editoras preferidos nas redes sociais. Bom, hoje o evento da vez foi de RPGs e jogos de tabuleiro em geral! A pedra garimpada de hoje é o Bestiário do Folclore Brasileiro de vários autores com ilustrações de Giancarlo R. Siervo e foi garimpada no evento Encontro Iniciativa RPG 2026, ao preço de R$ 150,00 da Tria Editora.
Antes de mais nada, vamos falar sobre um aspecto importante levantado na introdução do livro: ele é um livro (um suplemento) de RPG, não é um livro acadêmico sobre folclore, mitologia, antropologia etc. Apesar da pesquisa acurada dos autores e de uma boa bibliografia consultada (“Inspiração”, página 119), os mitos ali apresentados foram modificados para melhor se ajustarem a um jogo de RPG com temática de fantasia medieval (espada & feitiçaria, alta fantasia etc.). Mudanças foram feitas, mas há uma pesquisa meticulosa e real sobre nosso folclore em cada criatura, linha de texto e em cada ilustração do livro.
Assim sendo, estamos diante de um suplemento de RPG feito para o Sistema d20, 3 de suas variações: 5ª edição, Pathfinder 2ª edição e Tormenta 20. Cada uma dessas variações é um livro separado e completo em si mesmo. Assim, você pode escolher a variação do sistema d20 que seu grupo joga e facilitar a introdução das novas criaturas na mesa do grupo. Confesso que não vejo diferenças reais entre as variações do sistema d20, tanto que as fichas de personagens são exatamente as mesmas em todas elas e o que muda em uma as demais seguem; mas, tendo que escolher, escolhi Tormenta 20, pois os autores de Tormenta são os que melhor explicam e escrevem as regras de qualquer RPG desde o tempo da revista Dragão Brasil impressa. Aqui, Thiago Rosa e Pedro Coimbra foram os responsáveis pelas regras na versão compatível com Tormenta 20 (T20).
Voltando a falar das mudanças das descrições das criaturas e das lendas originais: é claro que os(as) mestres(as) e seus grupos poderão usar a regra de ouro para alterar as fichas para deixar os monstros mais fiéis ao folclore em cada mesa; ou, ainda que concordem com as estatísticas das fichas, usar descrições e narrativas mais fiéis as lendas originais. Mas de que tipo de mudanças estamos falando aqui? Acho que o maior exemplo (e um dos mais conhecidos) é o da Cuca. Na lenda original, a Cuca é uma só, no livro, ela é descrita como uma criatura que se reproduz. Mas por que os autores do livro fizeram isso? O motivo maior deve ser poder reutilizar a Cuca em várias aventuras caso os aventureiros a matem. Outro motivo é o fato de que todos temos o direito de reler nossas lendas como bem quisermos em nossas histórias de ficção, isso dá uma nova perspectiva e não apaga as lendas originais.
Novamente, o mestre da mesa não está proibido de usar a Cuca uma única vez e de tratá-la como uma criatura única, mas, fazendo isso e vendo os aventureiros matarem-na, seja coerente e não a use mais na mesa. Essa multiplicação que acontece com a Cuca acontece também com outras lendas que são únicas e que, no bestiário, são tratadas como espécies com vários exemplares da mesma criatura no mundo de jogo. Outro exemplo disso é a recém-popularizada Perna Cabeluda, via o filme O Agente Secreto de 2025; mas a Perna Cabeluda foi avistada tantas vezes e em tantos lugares que não seria improvável que fosse mais de uma. E é claro que há aquelas criaturas que não são uma só, mas várias espalhadas pelas matas e rios em suas histórias originais desde sempre, como os Botos, por exemplo.
Falando em mundo de jogo, o livro deixa sugestões para que o(a) mestre(a) crie uma terra (país, ilha, continente etc.) baseada no Brasil no cenário usado pelo grupo ou mesmo que crie um novo cenário inteiramente baseado no folclore brasileiro. Mas é uma mesa de RPG, se o mestre quiser colocar um Saci no caminho do grupo sem que o grupo esteja preparado para ver um Saci no cenário corrente da mesa, tá valendo. Será que aventureiros de espada & feitiçaria típicos saberiam lidar com uma Mula Sem Cabeça? Que monstro novo é esse? Por onde começamos a atacar? E de onde veio esta cobra de fogo que está nos atacando agora? Resumindo, o mestre pode, sem aviso, jogar um labatut ou um boitatá no caminho do grupo; mandar o grupo para uma nova terra com diferentes tesouros, monstros e desafios; ou iniciar uma nova campanha num cenário totalmente novo. Será que o bardo do grupo está preparado para não se deixar seduzir por uma boto criminosa ou pior, ele nem sabe da existência de tal criatura mágica e, portanto, nem tem como se defender? Será que a casta clériga do grupo pode resistir aos encantos de um boto? A ideia básica é lançar desafios novos em que personagens de fantasia medieval (e seus jogadores) não estão habituados a lidar.
Como todo bestiário de RPG, este livro se destina a mestres, mas não se iludam, os combeiros também leem os materiais dos mestres. Talvez alguns deles queiram fazer dessas criaturas personagens jogáveis, um boto bardo, um saci ranger ou ladino, enfim, com a regra de ouro, a imaginação e as decisões do grupo são os limites. Fora a possibilidade de se converter fichas de sistemas d20 variados para os sistemas que não são variações do Sistema d20. Resumindo, mais do que um apanhado de criaturas, o Bestiário do Folclore Brasileiro é um livro de propostas ao grupo de RPG. Proposta de novos desafios, de novos personagens, de novas aventuras, de novos cenários, de novas histórias e de novas campanhas.
A equipe de autores é composta por Daniel Bartolomei, Martin Rosa, Rafael Menão, Ricardo Costa e Sandro Albertini. A edição é de Bruno Mares e ainda contou com uma ampla equipe de desenvolvimento e com especialistas únicos para cada uma das 3 variações do Sistema d20 (OGL 1.0A) usadas nas 3 variações do livro. O prefácio é de Luiz Eduardo Ricon, autor de Desafio dos Bandeirantes. Uma sugestão que faço para futuras edições é que elas sejam em capa cartão, papel offset e com uma diagramação mais simples possível(sem efeitos) para baratear o livro e ter todas as 3 variantes do d20 em fichas para todas as criaturas num só livro. Isso evitaria que uma variante específica ficasse indisponível e faria o livro ser também um manual de comparação e conversão entre as 3 variantes do sistema d20 mais jogadas no Brasil.
Concluindo, que mesas especias sejam rodadas no dia 22 de agosto, o Dia do Folclore Brasileiro, que não é só do Saci, mas de todos os Sacis, da Perna Cabeluda, da Cuca e da turma toda! Prestigiem os pequenos eventos de quadrinhos ou RPGs nas suas respectivas cidades. Este novo Encontro Iniciativa RPG foi no Rio de Janeiro, começou no dia 5 e terminou em 7 de Junho de 2026. Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “garimpando” e clique no botão “pesquisar”. Assim, você verá tanto os outros garimpos de eventos como o “Garimpando em Gibiterias”.
Boas leituras!
Rodrigo Rosas Campos

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