O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal como livros clássicos. Os editores de quadrinhos nacionais são bem imediatistas e até mesmo obras como Fradim, Watchmen, Piratas do Tietê e Maus ficam difíceis de encontrar de tempos em tempos. A série “Garimpando em Gibiterias” fala de quadrinhos que valem a pena “garimpar” em gibiterias, sebos, estoques antigos de livrarias virtuais, feiras de livros e, se a grana estiver muito curta, em bibliotecas públicas. Sim, existem quadrinhos em bibliotecas públicas, é só procurar.
A pedra garimpada de hoje é Gatão de Meia Idade 1 de Miguel Paiva, texto e desenhos, pela editora Objetiva de 1995, achada em uma feira do livro por R$ 10,00.
Na década de 1990, Miguel Paiva bombava no Jornal do Brasil com 3 personagens, na revista de Domingo do Jornal do Brasil, havia a Radical Chic, sua personagem mais famosa, publicada semanalmente na última página da revista em histórias de uma única página inteira. Nas tiras do JB, ele dividia com Luis Fernando Veríssimo a adaptação de Ed Mort para os quadrinhos.
Mas o sucesso da Radical levou o autor a criar mais dois personagens e, naquele mesmo universo, surgiram O Gatão de Meia Idade e Chiquinha. Esta resenha é sobre o primeiro livro compilando as primeiras tiras do Gatão de Meia Idade. Enquanto livro, Gatão de Meia Idade 1 não tardou a ser publicado, uma vez que o sucesso da Radical o impulsionou e este primeiro livro já foi feito em 1995, praticamente no mesmo período que as tiras originais saiam e que sua sequência continuava na seção de tiras do JB. Chiquinha não tardaria a chegar.
Mas, para o desespero de alguns leitores novos, Gatão de Meia Idade 1 não possui nenhum tipo de extra, nem mesmo um prefacio ou posfácio do autor ou do editor, nada além das próprias tiras. Foi um livro lançado no calor do contexto em que foi produzido, não havia muito o que falar a mais sobre as tiras, seria redundante. Minto, tem um texto na contracapa sem assinatura. Um texto que pode ser encarado como uma sinopse oficial bem-feita (querendo ler, é só clicar na imagem para ampliá-la).
Não tem como falar de tiras uma a uma sem dar spoilers, são tiras, mas o Gatão de Meia Idade é um sujeito divorciado, com uma filha adolescente as voltas com uma nova vida de solteiro e tentando novas relações com mulheres, as vezes consegue, as vezes não, as vezes é bom, as vezes não, seguindo a vida e tendo que se equilibrar neste contexto. Óbvio que, tendo uma filha adolescente, também precisa manter um relacionamento cordial com sua ex-esposa.
Ironia, sarcasmo e muita reflexão crítica ácida sobre os costumes de nossa sociedade que levam homens e mulheres a terem perspectivas inalcançáveis em relação aos relacionamentos a dois. O modo como somos criados e que induzem a muitas diferenças artificiais entre os sexos é abordado nesse livro de forma inteligente e perspicaz.
Em pleno 1995, Miguel Paiva se mostrou a frente de seu tempo usando humor para falar da sociedade da perspectiva de um divorciado mulherengo, um gatão de meia idade, com todas as suas inseguranças e medos em relação aos seus relacionamentos amorosos.
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Este garimpo tem periodicidade indefinida, mas, se você quer conhecer mais, na área de pesquisa deste blog, digite “Garimpando em Gibiterias” e clique no botão “Pesquisar”. Ou digite apenas “garimpando” e encontrará títulos a mais em garimpos de eventos.
Boas leituras!
Rodrigo Rosas Campos


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