segunda-feira, 2 de março de 2026

[Resenha] Coisas Frágeis Volumes 1 e 2 de Neil Gaiman


    Antes de mais nada, sei que o autor se tornou polêmico, mas a vida da pessoa não afeta sua obra e um livro não deveria pagar pelos pecados do autor da mesma forma que filhos não deveriam pagar pelos pecados dos pais. Coisas Frágeis é o livro de contos de Neil Gaiman conhecido no Brasil por ter o conto no universo de Matrix e um encontro de Sherlock Holmes com Cthulhu, ou, ao menos, no universo de Cthulhu.

    Você, provavelmente, achou essa resenha procurando saber sobre estes dois contos específicos, falarei deles. Adianto que ambos estão no volume 1 do livro. Coisas Frágeis foi publicado em dois volumes no Brasil pela editora Conrad em 2010. Comprei ambos em um sebo por R$20,00 depois de ter chorado um desconto e o volume 1 está caindo aos pedaços. Tendo em vista que os preços atuais de livros de bolso estão mais caros que R$20,00, fiquei feliz.

    Gaiman escreveu introduções nos dois volumes do livro falando sobre os bastidores dos contos, de cada conto. Isso acontece porque os contos que formam Coisas Frágeis foram encomendados para o Gaiman depois da fama com Sandman pela DC/Vertigo. Tendo em vista uma parte geral comum desta introdução nos dois volumes brasileiros, creio que o livro fora publicado originalmente um um volume único e a Conrad o dividiu em dois. Acho que há outra edição brasileira de outra editora em volume único. Estes textos foram originalmente publicados em coletâneas de diferentes autores em livros temáticos ou revistas literárias. Não espere uma temática única entre os contos ou grandes ligações entre eles, isso até existe em alguns casos, mas não é comum. O que mais une estes textos é o mesmo autor.

    Mas vou começar a falar das histórias que provavelmente trouxeram você aqui. Não te julgo, comprei os volumes por elas também. Golias, que é a história no mundo do filme Matrix, foi feita para ser publicada no site oficial do primeiro filme antes mesmo da estreia do mesmo. E quem diria, por exemplo, que dois editores teriam a ideia de publicar um livro com diferentes visões de como Sherlock Holmes poderia investigar os estranhos fenômenos do horror cósmico? Mas isso aconteceu e Gaiman foi um dos autores convidados a dar sua interpretação, o conto Um Estudo Em Esmeralda.

    Para quem gosta de surpresas, sugiro evitar ler as introduções conto a conto. Alguns destes textos introdutórios sobre os contos específicos dão spoilers ou pistas para os mais atentos. Por outro lado, algumas histórias estão ligadas a histórias maiores e Gaiman, a meu ver, não conseguiu fazer de alguns destes contos histórias autossuficientes, o que pode fazer alguns leitores se perderem. Por esse motivo, decidi falar primeiro sobre Golias, o conto no mundo de Matrix.

    Golias narra a história de um homem alto que descobre a realidade por trás da matrix, mas ele a defende, afinal, este planeta Terra dividido entre a realidade virtual brilhante e o mundo real cavernoso e escuro é tudo o que ele conhece como lar e vida. Em acordos que faz com o computador, nosso protagonista negocia com a máquina uma realidade melhor para ele, mesmo sabendo que é, em parte, manipulado pela própria máquina. Mas, para realizar alguns desejos do nosso herói, a Matrix cobra um preço.

    Golias é uma história curta, não quero estragá-la, mas é uma ótima reflexão sobre se há ou não livre arbítrio e, em caso de existir livre arbítrio, quais seriam seus limites. A trama é uma reflexão sobre o que pode ser negociado, mudado e o que é inevitável nas vidas humanas. Este conto foi encomendado antes da estreia do filme. Gaiman leu o roteiro do filme para entender o mundo da Matrix e Golias foi publicado originalmente no site oficial do primeiro filme antes mesmo da estreia do primeiro filme no cinema. Alerta! Quem não viu ao menos o primeiro filme não entenderá nada. Golias é uma história oficial (cânone, no termo modinha) de Matrix.

    Um Estudo em Esmeralda é a versão de Gaiman de como Sherlock Holmes se encontraria com o horror cósmico. Como já disse, este conto foi encomendado para ser publicado originalmente na coletânea temática de vários autores intitulada “Shadows Over Baker Street”, “Sombras Sobre a Rua Baker” em uma tradução literal. Este livro trouxe várias visões sobre como o maior detetive da literatura investigaria casos envolvendo os mitos de Cthulhu. O texto de Gaiman, nesse caso, é autossuficiente, mas aqui entra uma advertência:

    Para juntar Sherlock Holmes e o horror cósmico num mesmo mudo, Gaiman subverte tanto as tramas originais de Arthur C. Doyle quanto as de H. P. Lovecraft, ou seja, desagradará puristas de ambos os autores originais. É uma história surpreendente, bem escrita, excelente, com uma visão única e ousada do horror cósmico de Lovecraft, mas ir além daqui é dar spoilers. Esta é para ser lida por leitores que possuem uma mente aberta em relação aos personagens de que gostam. Lembrando, se você é purista, fique longe dessa trama. Ao meu ver, este conto sozinho valeu o preço do livro inteiro. De fato, é de admirar que a Pipoca & Nanquim não tenha publicado “Shadows Over Baker Street” no Brasil depois de Histórias Assustadoras Para Contar a Noite e O Grande Livro dos Vampiros.

    Agora que já falei sobre os dois contos que deixaram este livro conhecido, darei a minha impressão geral dos dois volumes e falarei com destaque apenas dos textos de que mais gostei. Se você só queria saber do conto de Sherlock no mundo de Cthulhu e do conto da Matrix escritos por Neil Gaiman, pode ir embora, sem culpa, eu te entendo. Como já disse, comprei estes dois volumes por estes dois contos que estão no volume 1. O sebo onde comprei, não queria vendê-los separados. Boas leituras!

    Ficou aí?! Vamos continuar: como não tenho medo de eventuais spoilers, afinal eu gosto de Nélson Rodrigues, de tragédias gregas, de Shakespeare e de informações de bastidores, li as introduções. Importante ressaltar que, em Coisas Frágeis, Gaiman reuniu contos que já haviam sido publicados antes, ou na Inglaterra ou nos EUA, em outros livros de coletâneas ou em revistas literárias.

    Fico maravilhado como o quanto Neil Gaiman escreve melhor quando escreve menos, detesto verborragia, gosto quando as palavras mostram ideias e narrativas da forma mais econômica possível. Neil Gaiman provou, nesse livro, que quando ele quer, ele não é sonífero como em Sandman. Sim, não gosto de Sandman, me julguem! Entretanto, apesar de o primeiro volume ser mais regular e eu ter lido tudo de bom grado, o segundo volume se mostrou bem irregular e eu o abandonei.

    Continuando no volume 1, Lembranças e Tesouros é autossuficiente, mas trata-se de um conto de uma série maior de crimes e é bem adulta mesmo. Contém violência pesada, física e psicológica. Smith é um capanga faz tudo de um homem verdadeiramente muito rico, tão rico que fica longe dos holofotes das colunas sociais. Neste conto, Smith relembra a sua vida do orfanato até se tornar o capanga de alto nível deste homem muito rico. Uma vida marcada por abusos de todo o tipo que o levaram a perder quase completamente a noção de culpa. No mais, seriam spoilers. Essa é uma história para maiores de 18 anos mesmo.

    O Problema de Susan é sobre o destino de Susan nas Crônicas de Nárnia. Ler este conto sem ter lido todas as crônicas de Narnia é tomar spoilers. Basicamente, Gaiman escreve o epílogo do último livro que o autor original nunca escreveu. Assim como o conto de Sherlock no mundo de Cthulhu, este pode desagradar os puristas, mas, neste caso, só alguns muito poucos. Amei. Li as Crônicas de Nárnia, gosto da série Sherlock, dos mitos de Cthulhu, mas tenho a consciência de que ficção não é religião, quer cânone, vá a uma igreja.

    Os Fatos no Caso da Partida da Senhorita Finch é sobre um casal que pede ajuda a um amigo (o narrador em primeira pessoa). Eles pretendem sair para um circo experimental, mas a mulher deve favores à família da senhorita Finch e a senhorita os acompanhará. Assim, eles chamam o narrador para que a tal senhorita não fique segurando vela. Mas ela é insuportável e só fala de seu trabalho.

    Chegando no local do circo experimental, todos os artistas estão vestidos como seres sobrenaturais, mas o espetáculo começa e com ele as dúvidas sobre se as fantasias de vampiros, lobisomens e monstros em geral são realmente fantasias. Ir além daqui é realmente dar spoilers. Dica: não leia a introdução específica desse conto. Como Conversar Com Garotas Em Festas é um conto, não é um manual. Falar sobre esta história tendo em vista o seu tamanho e o porquê que ela tem graça é entregar tudo. O Pássaro do Sol é o conto que Gaiman fez para dar de presente de aniversário a uma de suas filhas. Achei sem sal, mas não o abandonei.

    O Monarca do Vale é um conto de Deuses Americanos que faz crossover com o mundo de crimes realistas de Smith. Da mistura desses dois mundos, o realismo foi obliterado pela fantasia de Deuses Americanos. Aviso: este conto é como um epílogo/continuação de Deuses Americanos, logo, traz spoilers.

    O Monarca do Vale confirma que tudo o que Gaiman escreve por conta própria está em um mesmo universo, o que não é tão comum quanto as pessoas pensam; a maioria dos escritores, mesmo quando repetem nomes, não costuma repetir exatamente os mesmos personagens. Mesmo não tendo gostado tanto assim do volume 1, não abandonei nenhuma de suas histórias, ou seja, o primeiro volume é bem escrito, regular e garante um bom entretenimento. O volume 1 como um todo não me arrebatou nem me repeliu.

    Agora o volume 2: este segundo volume também traz poemas e de nada vale comentar poemas para quem não os leu. Nem tentarei comentar os poemas aqui. Não li as versões originais do inglês, portanto não posso culpar quem os traduziu, mas não gostei do primeiro, abandonei o segundo e nem lerei a partir do terceiro. Dito isso, mesmo que eu não tivesse desistido da maioria dos contos do volume 2, Coisas Frágeis (o livro completo) já entra na minha lista de livros (leituras) abandonados(as).

    O Cascalho da Ladeira da Memória é bom, mas seu início é desanimador, insista que é um conto curto. Como um todo o volume 2 é bem mais irregular que o primeiro. Tem contos muito bons e instigantes, como Os Outros e No Final, mas também tem os verborrágicos que, de tão longos, se tornam chatos e previsíveis.

    Ouro destaque é sobre o taró de vampiro, este ficou incompleto, Gaiman não escreveu sobre todos os arcanos e, dos escritos, alguns são geniais e outros insossos. Um conto dividido em contos menores que reflete o macro de Coisas Frágeis, um livro com contos extremamente inspirados e com outros extremamente protocolares. Desisti de vez do livro depois de ler esse taró de vampiros que nem o autor terminou e publicou inacabado mesmo.

    Lembrando que se não citei o título de algum conto aqui, é porque não o achei grande coisa nem para falar mal, falar mal seria dar nota a algo que deve ser completamente indiferente. Deixem seus comentários com carinho e educação, pois eles serão lidos com carinho e educação. Boas leituras!

    Rodrigo Rosas Campos


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