quinta-feira, 10 de setembro de 2026

[Matéria] Super-heróis Made in Brazil, Sim, Eles Existem

Rodrigo Rosas Campos

Introdução

    Não entrarei no mérito acadêmico de que super-heróis são manifestações típicas dos EUA assim como o rock e o jazz mesmo quando feitos por não estadunidenses fora dos EUA. Essa é a mesma discussão sobre o rock brasileiro, o bang-bang italiano, o jazz fora dos EUA e o samba fora do Brasil.

    Essa discussão é linda quando envolve gente que consegue manter uma discussão civilizada, onde os participantes concordam em discordar se for o caso, e que conhecem o assunto de verdade, por livros e não por posts de redes sociais. Em todo o caso, o tema divide opiniões, mas não é o foco aqui. E nem quero comentários a respeito, quem quiser se polarizar que faça isso longe. Com quem eu sei que não discute tudo na base da torcida Fla x Flu, GreNal etc. eu falo isoladamente, de preferência presencialmente. O que importa aqui é que brasileiros escreveram, desenharam e publicaram super-heróis em território nacional. Sigamos a partir daqui:

Um Registro Histórico

    Sim, eles existem e em 2019, o Chiaroscuro Studios lançou o Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros reunindo informações sobre eles em 200 verbetes e 57 releituras gráficas. Em 2022, o arquivo em PDF foi liberado pelo site do Chiaroscuro Studios e serviu como primeira base para este ensaio, uma vez que é mais fácil escrever a partir de um documento que serve como ponto de partida e referência maior do que por informações esparsas, o Chiaroscuro Studios está de parabéns.

    E por que isto é um ensaio e não uma resenha simples? Bom, muita coisa desse livro eu já sabia e sei coisas que não estão nesse livro, mas que quero colocar aqui para complementar. Ou seja, estou usando e complementando as informações desse livro, não dando uma opinião sobre o texto e as releituras gráficas.

    Estes super-heróis nacionais são difíceis de achar. Afinal, muitos são personagens antigos com poucas publicações cada e tiragens bem pequenas. O próprio livro impresso Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros também está difícil de encontrar, pois foi feito por financiamento coletivo com uma tiragem bem reduzida em 2019. É claro que eu não comentei todos os 257 verbetes totais do Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros aqui, mas ao menos procurei dar alguma palhinha sobre alguns mais emblemáticos.

    O Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros possui texto e pesquisa de Franco de Rosa. O autor, além de profissional e pesquisador de quadrinhos, é, ele próprio, um dos criadores de alguns super-heróis brasileiros. Ou seja, o autor da pesquisa participou desse movimento de criação de super-heróis no Brasil. Seu personagem mais famoso é o Ultraboy. Apesar do sucesso do gibi, ele foi uma das muitas surfadas editoriais na onda do sucesso da série de TV japonesa Ultraman. Seguindo essa tendência, Ultrax é uma outra versão brasileira do Ultraman e, justiça seja feita, é a mais diferente de todas. Criado só em 1991 e publicado só em 2001, Ultrax é de Eloir Carlos Nickel.

Muitos São Só Cópias, Sejamos Honestos

    O Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros impresso teve acabamento de luxo, foi lançado por financiamento coletivo na plataforma Catarse e foi caro no seu lançamento. Principalmente se os leitores repararem que muitos desses super-heróis brasileiros lá catalogados não passam de meras cópias oportunistas dos gringos. Isso é fato e contra fatos não há argumentos.

    Assim, Raio Negro é só um Lanterna Verde genérico com o anel de luz negra, antes da luz negra virar modinha; Bola de Fogo é uma cópia brasileira do Tocha-Humana original com uma origem alienígena para não dar muito na vista; Alma de Aço é só mais um robô militar que ganha consciência própria; Audaz, o Demolidor, é só mais um mecha, robô gigante tripulado, anterior as séries japonesas, mas feito com base numa série mexicana que se inspirava em pulps de ficção científica norte-americanos; Fantastic é só um agente secreto que usa um traje no melhor estilo Homem de Ferro; Hydroman é só mais um plágio descarado do Namor; Místyko é uma cópia descarada do Senhor Destino (Doctor Fate) da distinta concorrente.

O Judoka, Cópia ou Substituto Nacional?

    E se o editor brasileiro não pode usar mais um personagem licenciado de fora, ele encomenda um equivalente nacional. O Judoka é um vigilante que luta judô. Criado para ser o substituto nacional do Mestre Judoka, da Chalton, quando este deixou de ser publicado aqui no Brasil pela EBAL (e isso é uma longa história que não cabe aqui). Com o tempo, o Judoka ganha uma parceira, a Judoka. Apesar da criatividade para nomes, a série foi um dos maiores sucessos de super-heróis em quadrinhos no Brasil. Com efeito, nossos Judokas eram brasileiros, com histórias 100% novas e ambientadas no nosso país. Os nossos Judokas (ele e ela) foram criados por Monteiro Filho (artes) e Pedro Anísio (roteiros) em 1969. Essa é uma cópia com originalidade real que merece verdadeiros aplausos! Uma cópia que virou um novo original e o segredo foi uma história nova em uma ambientação nacional. Até hoje é um dos mais famosos títulos dos quadrinhos brasileiros. O Judoka chegou a ter filme, que foi perdido com o tempo.

Capitão 7, o Mais Famoso

    Até mesmo o mais famoso de todos, o Capitão 7, é uma mistura de Flash Gordon com Superman e foi feito como um programa de TV, virando, posteriormente, uma marca de uma famosa fábrica de fantasias para crianças, famosa sobretudo nas décadas de 1980 e 1990. Bom, seja como for, não tem como não falar um pouco mais deste que é o mais famosos de todos os super-heróis brasileiros. Criado para a TV, na antiga rede Record, canal 7, daí o número 7, onde ele era mais um cover do Flash Gordon. Quando transportado para os quadrinhos, virou uma mistura de Superman com Flash Gordon. Seus poderes estavam na roupa, armas e no treinamento que recebeu no Sétimo Planeta. Foi criado por Rubem Biáfora e pelo ator Ayres Campos, sendo que este ficou com os direitos do personagem e abriu a famosa fábrica de fantasias.

    A reimaginação de Eduardo Pansica (lápis e redesign), Júlio Ferreira (arte-final) e Márcio Menyz (cores) mudou a etnia do Capitão 7. Todavia cabe salientar, e isso não está no Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros, que em 1995, Darlei Nunez já havia criado e colocado um novo Capitão 7, afrodescendente, no grupo Comando Justiça como discípulo e sucessor do original em um fanzine (https://hqquadrinhos.blogspot.com/2010/02/capitao-7-by-darlei-nunez-brasil.html).

    Aqui, vale lembrar que, assim como o Capitão 7 começa como um programa de TV, Jerônimo, Flama e alguns outros começam como programas de Rádio, o que mostra que o Brasil tem como uma de suas especialidades as adaptações na contramão, indo no caminho oposto do que geralmente acontece: o normal seria literatura em prosa ou em quadrinhos sendo transportadas para mídias audiovisuais. O Flama é o vigilante criado por Deodato Borges em 1963. De todos os vigilantes brasileiros, ele é o que mais parece uma mistura do Spirit com o Batman.

    Seguindo o sucesso do Capitão 7, a fábrica de brinquedos Estrela criou seu próprio herói para a TV e para os quadrinhos. Em 1959 (indo para os quadrinhos em 1961) surgia o Capitão Estrela. Apesar de ser uma jogada de marketing, suas características sobre-humanas eram explicadas por mutação antes dos X-Men, que só seriam publicados nos EUA em 1963. Por conta de complicações por direitos, o Capitão Estrela nunca mais pôde ser republicado. Fica o registro de que o Capitão Estrela foi um precursor dos super-heróis mutantes e que foi do Brasil, e ele não foi o único precursor brasileiro em seu conceito.

Velta, a Mais Famosa e Outros Precursores Brasileiros

    Nem todos os super-heróis brasileiros foram meras cópias, alguns foram até precursores. Velta é, certamente, a mais famosa hoje. Criada por Emir Ribeiro, teve pouca repercussão em sua criação em fanzines, mas é de 1973, logo, é anterior a Mulher-Hulk da Marvel, além de não estar vinculada a nenhum personagem protagonista masculino anterior.

    O Patrulheiro Fantasma é de 1967, criado por Rubens Cordeiro, também é anterior ao Motoqueiro Fantasma da casa das ideias. Fikom, criado por Fernando Ikoma em 1967, é um personagem herói que transita pelos sonhos, criado muito antes do Sandman de Gaiman e chegou a ser publicado fora do Brasil.

    Garra Cinzenta é na verdade o megavilão da história que não é ambientada no Brasil. Sua iconografia antecede o vilão Caveira Vermelha e o super-herói americano pouco conhecido no Brasil, o Terror Negro. Garra Cinzenta foi criado em 1937 por Francisco Armond (roteiro) e Renato Silva (desenhos), sendo que há suspeitas em torno destes créditos, o que não vem ao caso agora.

    Golden Guitar é um super-herói baseado no sucesso da Jovem Guarda. Criado por Rivaldo A. Macedo, Rubens Cordeiro, A. Torres e Apa (Aparecido Benedito da Silva) em 1967. Sua arma é sua guitarra elétrica dourada modificada. É um precursor, anterior ao Zé da Guitarra (Punk Rock) do desenho animado norte-americano Escola de Heróis (Hero High) de 1981. Zodiako, um personagem cósmico de 1974 criado por Jayme Cortez. Apesar de sua história ter como base o zodíaco e a astrologia, em termos de escala de poder, é um precursor do Doutor Manhattan de Watchmen.

    Quebra Queixo não é bem um precursor, mas é o representante do cyberpunk mais famoso do Brasil nos quadrinhos. Criado em 1983 por Marcelo Campos, traz um futuro distópico tipicamente brasileiro. Um tapa na cara para quem esquece que há política até em histórias de super-heróis.

    Justiça seja feita, o próprio Capitão 7 tem elementos de inovação: uma criança é levada para outro planeta, recebe treinamento e conhecimentos superiores e uma roupa que amplia suas capacidades. Lembra algum super sentai japonês? Pois é, e o Capitão 7 é de 1954.

    Entretanto, apesar de alguns heróis precursores em temáticas e poderes, não podemos deixar de notar que a grande maioria não passou de cópias para tirar proveito de sucessos, tanto dos quadrinhos quanto de séries de TV estrangeiras. São muitas as cópias brasileiras de Tarzan (com versões femininas inclusive), Fantasma, Conan e, com já visto, até do Ultraman.

    Falando em covers do Fantasma, o primeiro Escorpião é a cópia brasileira mais famosa dele. Surge em 1966 por autoria de Wilson Fernandes. O Escorpião 2 foi uma releitura do primeiro, mais super e urbana, uma vez que o primeiro fora processado pela empresa que detinha os direitos de distribuição do Fantasma no Brasil. Outros personagens de selva são: o Morcego, este é baseado numa lenda real dos nativos da Amazônia. Criado para ser uma das muitas cópias do Fantasma, este ao menos se baseia numa lenda e se livra de processos. Foi criado por Wilson Fernandes em 1974; Morena Flor, mais uma entre muitas versões femininas de Tarzan, uma garota da selva típica. Foi criada por André Le Blanc (roteiro e desenhos) em 1947.

Sinais dos Tempos: Estes Seriam Inapropriados Para os Dias de Hoje

    Alguns dos super-heróis brasileiros são deveras problemáticos para nossos dias. Até mesmo suas republicações simples seriam bem problematizadas. Vamos a eles: o Gênio, ou o Gênio do Calhambeque, personagem criado sob encomenda na onda do “o petróleo é nosso.”. Surge para ser didático em relação ao petróleo e seus benefícios e vem de um escapamento de um calhambeque como se fosse um gênio típico das 1001 noites. Com a poluição do mundo de hoje, aquecimento global e a busca por matrizes energéticas limpas, duvido que seria publicado hoje.

    Outro herói que se tornou bem problemático foi o Homem-Fera. Seu visual lembra o Pantera Negra, seu nome o mutante Fera dos X-Men, mas não tem nada a ver com nenhum dos conceitos anteriores. Domador de circo, tem uma pantera-negra de estimação que combate o crime com ele. Eram tempos em que circos podiam ter animais selvagens nos números e que isso era normalizado. Não a toa, sua releitura no Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros segue um estilo anos 1990, pouco antes da lei que proibiu animais em circos no Brasil.

    Homem Justo, um vigilante com um cinto tecnológico alienígena que lhe dava superpoderes, tendo em vista a época de sua publicação original e as mudanças feitas em sua história, é muito provável que tenha tido problemas com a censura da ditadura na época. Vigilantes e espiões genéricos são sempre de gosto duvidoso por lembrarem milícias em geral e isso não dá para negar: Homem de Preto, Fantasma Negro, o Gato, Superargo entre outros.

Concluindo

    É fato que nossas eternas e crônicas crises econômicas atrapalham e até mesmo abortaram o desenvolvimento de séries maiores e que muitos personagens recorrentes foram interrompidos por isso. Mas não acredito que nenhum deles seria mantido em reboots eternos. Autores brasileiros de quadrinhos e a maioria dos leitores daqui não estão dispostos a assinar contratos vitalícios e muitos desses personagens só possuem algum apelo quando produzidos pelo(s) autor(es) original(nais).

    O fã típico de super-herói, que se apega ao personagem (a marca, ao selo editorial, universo compartilhado, cronologia etc.) mais do que as equipes criativas específicas (os profissionais que realmente fazem o personagem acontecer), é só uma minoria barulhenta, tanto aqui no Brasil, quanto nos EUA. Tanto é verdade, que esse público parou de se renovar e está literalmente fadado a morrer de velhice, como todos nós. Com efeito, hoje, o público de super-heróis é de cinema, séries de TV, videogames e RPGs. Um público que não exige que o novo ator de 007 refaça todos os filmes anteriores, um público mais disposto a aceitar diferenças em relação ao que veio antes.

    Fora que os quadrinhos brasileiros encontram mais espaço em sátiras (principalmente políticas), terror e infantil e isso vai das preferências e facilidades dos próprios autores brasileiros. Com efeito, a maioria dos super-heróis produzidos aqui são paródias. Entre essas paródias originais, um destaque especial vai para o Capitão Cipó de 1968 criado pelo saudoso Daniel Azulay, muito antes do Overman da Laerte.

    E esses personagens, super-heróis brasileiros, têm republicações? Sim, eles tem republicações, todas de forma independente ou por pequenas editoras, procure sobretudo as gibiterias virtuais; algumas dessas republicações saem pelo advento do financiamento coletivo no Brasil. Alguns deles têm publicações novas? Sim e com encontros até, também por financiamentos coletivos. A maioria dos encontros são de gosto duvidoso, bem verdade, baixe as expectativas, divirta-se e seja feliz. A saga dos super-heróis brasileiros continuou? Sim. Nos verbetes, o Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros tem personagens surgidos até no ano 2000 em diante. Há novos super-heróis brasileiros autorais surgindo até hoje, o tempo todo. Destaco As Empoderadas de Germana Viana de 2015; Esquadrão Vitória de Gico Galli em 2017 e 2020; e Dias de Horror de Danilo Beyruth e Chiaroscuro Studios em 2017. Com efeito, estas três histórias são só algumas das mais atuais e as melhores ao meu ver.

Para Saber Mais

    Adquiri uma versão em PDF do Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros em 19/05/2022 disponível no site da Chiaroscuro Studios. Não sei a empresa mantém a promoção do PDF grátis. Já a versão física do livro, infelizmente, você só o achará usado. Ele pode ser republicado fisicamente? Dificilmente, não alimente esperanças. Em todo caso, acompanhe a Chiaroscuro Studios tanto pelo site oficial, pelas redes sociais deles e pelo Catarse. Vai que ele seja republicado para ser uma recompensa futura; improvável, mas não impossível.


    ROSA, Franco de.  Grande Almanaque dos Super-heróis Brasileiros.  São Paulo: Chiaroscuro Studios, 2019.


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