O mercado de quadrinhos no Brasil é muito fraco, sejamos honestos. Lá fora, grandes obras permanecem em catálogo permanente tal como livros clássicos. Os editores de quadrinhos nacionais são bem imediatistas e até mesmo obras como Watchmen e Maus ficam difíceis de encontrar de tempos em tempos. A série “Garimpando em Gibiterias” fala de quadrinhos que valem a pena “garimpar” em gibiterias, sebos, estoques antigos de livrarias virtuais e, se a grana estiver muito curta, em bibliotecas públicas. Sim, existem quadrinhos em bibliotecas públicas, é só procurar.
A pedra garimpada de hoje é Cartas Selvagens da Epic que saiu pela editora Globo aqui no Brasil. Já fiz uma resenha deste gibi no Literakaos, porém percebi que a resenha original não ficou tão focada na edição em si, falei mais da série de livros originais.
Na história, a Terra é usada como campo de teste de um vírus mutagênico artificial do planeta Takis. Um dos cientistas responsáveis se arrepende e vem à Terra tentar impedir a disseminação do vírus, mas ele fracassa, ficando aprisionado em nosso planeta alterado para sempre. Anos depois, um atentado ao túmulo de Jet Boy desencadeia uma investigação que traz a tona memórias amargas e ressentimentos profundos. Um evento presente que abre ainda mais as feridas de um mundo marcado pelas mutações do vírus alienígena carta selvagem. Neste contexto, acompanhamos a aliança de Crisálida, Tachyon, Dorminhoco, Peregrina e Poping Jay na busca pelo terrorista que explodiu o túmulo de Jet Boy.
O vírus alienígena conhecido como Carta Selvagem pode: matar o infectado instantaneamente, dama de espadas; deformar o infectado, coringa; ou dar superpoderes para o infectado sem nenhum ônus, os raríssimos e sortudos ases. Nesse mundo, os desafortunados e segregados coringas vivem em guetos, como o Bairro dos Coringas em Nova York.
Cartas Selvagens (Wild Cards) é uma série de livros de super-heróis para adultos – desaconselhável para menores de 18 anos. Surgiu em uma mesa do RPG Super World, quando o grupo resolveu romancear a campanha que jogava. O mestre do jogo era George R. R. Martin que organiza e coescreve a série, junto com os jogadores de sua mesa; com destaques para: Melinda M. Snodgrass, criadora do Doutor Tachyon e de toda a trama do planeta Takis que deu origem ao vírus; Roger Zelazny, criador do Dorminhoco, maior ícone da série; Steve Perrin, criador do Cyclone, Mistral, Digger Downs e do RPG SUPERWORLD, o jogo de RPG que inspirou a série.
O grupo de escritores liderados por George R. R. Martin, criadores e donos de Wild Cards, resolveram licenciar os direitos da série de livros para os quadrinhos e escolheram o selo Epic, ligado a Marvel Comics, para lançá-lo. A Epic era um selo independente na Marvel, ou seja, não tirava os direitos dos autores. Assim, a primeira adaptação de Wild Cards foi uma minissérie em quatro edições pela Epic, escritas pelos mesmos escritores dos livros e ilustrada por grandes nomes dos quadrinhos na época que ainda mantinham vínculos com a Marvel.
Depois do lançamento da série, a Globo fez essa edição encadernada da minissérie. Literalmente encadernada, pois essas edições não são uma republicação em volume único, mas as edições encalhadas remontadas e encadernadas em uma capa de papel cartão impressa posteriormente, onde as quatro capas brasileiras foram descartadas. Isso era muito comum, fazendo as minisséries antigas valerem mais separadas que compiladas no Brasil. Estes encadernados de encalhes são conhecidos como “encalhernados”.
As quatro edições separadas são bem mais difíceis de se encontrar em gibiterias, sebos e Internet. Na Internet, os preços por cada uma dessas edições é exorbitante. Eu tive sorte de encontrar o encadernado em preço bom. Na época do lançamento, li as quatro edições de um amigo e fiquei fã do universo desde então.
É uma excelente pedida enquanto história em quadrinhos. Traz as artes de grandes nomes dos quadrinhos americanos (desenho, arte final e cores) de uma época que não havia computador para ajudar. Tudo era feito a mão! É anterior a Marvels e algumas páginas são pintadas. Vários artistas, cada um com certo número de páginas, criando um mosaico de estilos variados com o mesmo grupo de personagens. É bonito de ver. A Globo ainda teve o cuidado de pôr na contracapa do encadernado uma folha-corrida dos personagens.
Apesar de ter sido escrita pelos mesmos autores dos livros, não é parte do universo regular. Para quem acompanhou os livros publicados aqui pela Leya/Omelete, saiba que a história dos quadrinhos foi a mesma até o livro 5. Esse quadrinho se passa depois dos eventos do quinto volume e é desconsiderado nos livros 6, 7 em diante. Ou seja, a história dos quadrinhos se passa em um dos universos paralelos de Cartas Selvagens, não no principal dos livros. Mas, no termo da modinha, também é cânone, pois o multiverso aparece oficializado no livro 9.
Como a série de quadrinhos da Epic não passou das 4 edições de uma mesma história em formato de minissérie, esse primeiro universo paralelo de Cartas Selvagens permanece com sua história maior em aberto. Se você quiser um “para saber mais” sobre esta revista, clique aqui. O garimpo entra em novo recesso. Boas leituras!
Rodrigo Rosas Campos

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