Antes
de mais nada, este texto é destinado a mostrar duas opções de
edições de livros para quem quer experimentar o autor H. P.
Lovecraft, mas não sabe por onde começar e já ouviu falar em um
tal de Cthulhu. Se você já é fã de Lovecraft e seu horror
cósmico, estas linhas não acrescentarão nada ao que você já
sabe. E acho que nem preciso dizer que a obra de Lovecraft não é
aconselhada para menores de 18 anos. Ops, já disse.
Outra
coisa que faço aqui, é compartilhar minha humilde reflexão sobre
duas formas de publicar um mesmo conteúdo. Como vocês verão, não
há uma forma mais certa e outra mais errada, uma melhor e outra
pior. Cada uma delas depende do objetivo da editora e de como o
público quer chegar naquela obra.
Um
mesmo título e duas edições diferentes de duas editoras diferentes
resultando em dois livros diferentes. É sempre interessante ver como
duas editoras trabalharam o mesmo material, principalmente levando em
conta que as duas edições tiveram o mesmo título “O Chamado de
Cthulhu e Outros Contos”, mas com alguns contos diferentes e alguns
contos repetidos de uma edição/editora para outra. No caso de H. P.
Lovecraft, isso se dá porque o autor publicou sua obra,
originalmente, em revistas literárias pulps de terror/horror no
formato de contos. Como sua obra caiu em domínio público, cada
editor pode pegar esse material e editá-lo como bem entender.
Nesta
matéria não será feita uma comparação de traduções, eu não
reli o que eu já tinha lido e isso não traria nada para a discussão
que pretendo fazer nessa matéria. Como já disse e repito, cada
editor tem liberdade para publicar e republicar o material de
Lovecraft como bem entender, o que quero comparar aqui são as duas
abordagens de publicação tendo em vista estes volumes específicos
da Hedra e da L&PM. Também não será feita uma resenha conto a
conto, isso já tem aos montes na Internet, em livros e revistas
(especializadas em literatura ou não). Pode procurar.
O
que pode ser dito inicialmente sobre essas duas editoras em relação
a Lovecraft? A L&PM é uma editora mais antiga e consolidada.
Foi, durante muitos anos, a editora de Luís Fernando Veríssimo no
tempo em que ele era um dos maiores vendedores de livros do país, se
não o maior. Quando, nos anos 1990, a L&PM desenvolveu sua linha
de livros de bolso, a coleção L&PM Pocket, já colocou O Caso
de Charles Dexter Ward de Lovecraft como o volume 25 da coleção.
Hoje, publica 6 livros de bolso com contos de Lovecraft.
Inicialmente,
a coleção L&PM Pocket trouxe reedições econômicas de títulos
que já estavam no catálogo da L&PM. Hoje, os livros de bolso
são o carro-chefe da L&PM. Em suma, por parte da L&PM, nunca
houve uma preocupação de focar em Lovecraft, ele era (e ainda é)
apenas um autor que podia ser colocado para fazer volume numa linha
maior.
A
Hedra é uma editora mais recente e parece ter entrado no mercado
para preencher o segmento de terror e livros econômicos. Fez de
Lovecraft seu carro-chefe (ou, ao menos, um de seus carros-chefes).
Consultando em 05/11/2020 o site da editora, parece que Lovecraft não
é mais a prioridade deles agora, mas, os livros de bolso da Hedra
mais conhecidos hoje são coletâneas de Lovecraft. São baratos e
fáceis de achar em sebos, feiras do livro, livrarias reais e
virtuais, novos ou usados e em bibliotecas públicas. Esta é a maior
vantagem das edições da Hedra hoje.
Ambas
as editoras publicaram os livros de bolso de forma que eles fossem o
mais barato e atraentes possíveis ao público brasileiro. Apesar do
formato de bolso ser popular no país, o público brasileiro é
avesso a páginas de papel-jornal (polpa). Quem já viu ou comprou
livros importados sabe que os autores dos mais desconhecidos aos mais
célebres, dos mais atuais aos caídos em domínio público, vendem
livros em formato de bolso e com papel de polpa no miolo. Enfim,
triste verdade, as editoras brasileiras que tentaram lançar linhas
de livros de bolso com miolo de polpa de papel não foram muito longe
pois os poucos leitores que existem no Brasil são superficiais ao
ponto de recusarem os formatos mais baratos do livro impresso. O
formato comum dos livros nas duas editoras demonstra que ambas querem
popularizar a obra o máximo possível dentro da realidade do mercado
brasileiro e seus leitores. Neste aspecto, as edições da Hedra são
mais baratas que as da L&PM em função da qualidade gráfica
superior desta última.
Antes
de continuar, vale lembrar que várias editoras publicaram e publicam
volumes com as obras completas de Lovecraft e que eles estão nas
livrarias brasileiras tanto em português como em inglês (edições
importadas). Todavia, são obviamente edições bem caras e comprar
uma obra completa sem antes experimentar um autor(a), qualquer que
seja ele (ou ela) é um risco. Você não sabe se vai gostar de ler
Lovecraft, nem se gostará ao ponto de querer ler tudo o que ele
escreveu. Fora que você tem o direito de não gostar de qualquer
escritor(a) por mais consagrado(a) que ele(a) seja. Isso vale para
Lovecraft e para qualquer outro(a) autor(a).
Como
a L&PM e a Hedra lidam com as polêmicas em torno de Lovecraft? A
obra de Lovecraft é cercada de algumas polêmicas: ele era racista e
não gostava de sexo são as mais notórias. Isso fica evidente em
sua obra e nem a L&PM, nem a Hedra passam pano para isso, mas
lidam com esse fato de diferentes formas.
A
Hedra se preocupou em acrescentar textos introdutórios explicando e
contextualizando a obra de Lovecraft. Em sua edição de O Chamado de
Cthulhu e Outros Contos de 2012, este texto introdutório é assinado
pelo próprio tradutor, Guilherme da Silva Braga.
Nesse
aspecto, a L&PM optou por aquela biografia protocolar do autor,
Lovecraft, de 2 páginas e sem assinatura do autor do texto, que não
entra em pormenores e é sem juízos de valores. Bem chapa branca. A
tradução de Alexandre Boide não tem censura e demonstra de forma
escancarada o racismo de Lovecraft, do autor, sobretudo em “Herbert
West – Reanimador” e “Os Ratos Nas Paredes”, presentes neste
volume nas páginas 42 até 114. O racismo de Lovecraft também se
mostra presente em Nyarlathotep. Sem dúvida esta edição da L&PM
está recheada das “facadas no coração” mencionadas no livro
Território Lovecraft de Matt Ruff.
Como
a L&PM já era uma editora com história e público próprios há
décadas, talvez houvesse (e haja) o consenso de que Lovecraft já
era (seja) conhecido em todos os seus aspectos e ela contasse (conte)
com o bom senso de seus leitores na hora de ler o texto. Em todo
caso, a série L&PM Pocket simplesmente publica livros de bolso
mostrando os conteúdos da forma mais crua possível, sem nenhuma
preocupação didática em relação a obra, mas como um produto de
entretenimento o mais acessível possível a quem procurar.
Vamos
lembrar que a L&PM iniciou sua linha de bolso como versões
econômicas do que ela já publicava nos anos 1990, ou seja, O
Chamado de Cthulho e Outros Contos da L&PM se destina aos
leitores da L&PM ou aos leitores de Lovecraft na L&PM, não a
novos leitores de fato e nem a leitores de Lovecraft mais
aficionados.
Bom,
vamos agora dar uma visão geral das duas edições com suas
respectivas referências bibliográficas. A L&PM publicava
Lovecraft a mais tempo, mas a Hedra fez um livro com o título O
Chamado de Cthulhu e Outros Contos em 2012 e a L&PM só fez em
2018, com efeito, é o volume 1.241 da coleção L&PM Pocket.
Logo, vamos começar pela edição da Hedra:
LOVECRAFT,
Howard Phillips. O Chamado de Cthulhu e Outros Contos. São
Paulo: Hedra, 2012.
A
tradução da Hedra foi de Guilherme da Silva Braga, com introdução
do tradutor e dois textos de Lovecraft sobre literatura fantástica:
Carta a R. Michael; e Notas Sobre a Escritura de Contos Fantásticos.
Estes textos do Lovecraft sobre histórias fantásticas e a
introdução do tradutor mostram o investimento que a Hedra fez na
obra do Lovecraft, um autor de domínio público, com um público
nichado, mas fiel, que poderia trazer leitores (e dinheiro certo)
para a editora, até então, nova.
Entretanto
cabe notar aqui, que a introdução escrita pelo tradutor se
preocupou em alertar novos leitores sobre os eventuais elementos
espinhosos do texto de Lovecraft em função do racismo do autor. Na
possibilidade de trazer novos leitores, que estes novos leitores não
se sintam enganados.
Os
contos da edição da Hedra são: Dagon; Ar Frio; O Que a Lua Traz
Consigo; A Música de Erich Zann; O Modelo de Pickman; O Assombro das
Trevas; e O Chamado de Cthulhu.
São
7 histórias e um total de 156 páginas. É claro que outros autores
de domínio público fizeram parte do catálogo inicial da Hedra, mas
os livros que mais vi (e vejo) da editora são os de Lovecraft e de
terror em geral.
Agora
vamos olhar O Chamado de Cthulhu e Outros Contos da L&PM de 2018:
LOVECRAFT,
Howard Phillips. O Chamado de Cthulhu e Outros Contos. Porto
Alegre: L&PM, 2018.
A
tradução da L&PM foi de Alexandre Boide. Como já dito, há uma
biografia protocolar (chapa branca, de 2 páginas) de Lovecraft sem
identificação do autor deste texto biográfico. Não há textos do
autor sobre os bastidores de sua obra e nem como ele entende o
horror/terror e a ficção científica, essa não era a proposta da
L&PM, Lovecraft nunca foi o carro-chefe da editora.
Os
contos da edição da L&PM são: Nyarlathotep; A Cidade Sem Nome;
A Música de Erich Zann; Herbert West – Reanimador; Os Ratos nas
Paredes; Ar Frio; O Chamado de Cthulho; O Modelo de Pickman; A Cor
Vinda do Espaço; A História do Necronomicon; e O Horror de Dunwich.
São
11 histórias e um total de 304 páginas.
Ambas
as edições trazem catálogos com outros títulos nas páginas
finais, o que é bem normal em livros de bolso. Quatro contos se
repetiram em ambas as edições, foram eles: Ar Frio; A Música de
Erich Zann; O Modelo de Pickman; e O Chamado de Cthulhu, obviamente.
Uma
observação que julgo pertinente, pois evidencia a diferença com
que as duas editoras trabalharam um mesmo material, é que um dos
contos publicados pela edição da L&PM ganhou uma edição
exclusiva pela Hedra em 2012, A Cor Que Caiu do Espaço. A edição
d´A Cor Que Caiu do Espaço da Hedra também teve tradução de
Guilherme da Silva Braga, introdução do tradutor e três textos de
Lovecraft falando sobre o seu trabalho e de como ele pensava a ficção
científica de sua época, além, claro, da história título do
livro.

Obviamente,
a Hedra queria o público do Lovecraft mais do que a L&PM, pois
apesar da menor quantidade de páginas por edição, há um material
extra destinado a fãs: fãs específicos de Lovecraft; de
horor/terror em geral; e de ficção científica em geral. Um público
que anseia por informações além das histórias propriamente ditas.
Porém, as introduções do tradutor nos volumes da Hedra mostram uma
preocupação da editora em contextualizar a obra com a época e o
lugar em que ela foi escrita para que eventuais novos leitores não
se sintam traídos, enganados ou mesmo ofendidos com os editores e o
tradutor, afinal, o autor é que era racista. O livro Território
Lovecraft de Matt Ruff aborda, ainda que de forma ficcional, o
racismo na obra de Lovecraft trazendo protagonistas e heróis negros,
vale a pena ler.
O
racismo em Lovecraft é uma parte espinhosa de sua obra. Sua aversão
a sexo o colocava entre os mais retrógrados e reacionários entre os
conservadores ainda em sua época. Mas porque ler, ainda hoje, a obra
de alguém assim? As ideias nos textos de Lovecraft influenciam tudo
o que temos hoje na cultura pop, não haveria Os Caça-Fantasmas,
Alien, Arquivo X, The Walking Dead, só para citar alguns dos
exemplos mais notórios hoje, sem a obra de Lovecraft.
Mesmo
quando os personagens e nomes do universo de Cthulhu não estão
presentes na obra dos influenciados por Lovecraft, as ideias dele
estão lá, os conceitos estão lá, muitos papéis de personagens e
monstros se repetem.
E
qual seria essa grande influência? Lovecraft decidiu que todas as
suas histórias aconteciam num mesmo mundo e a trama maior era de que
a Terra, em sua insignificância cósmica, não passava de um planeta
sendo cultivado para alimentar alienígenas que eram considerados
deuses por povos mais antigos. Cthulho, o mais conhecido destes
deuses alienígenas, seria apenas o que despertaria os mais
poderosos. Os “heróis” Lovecraftianos lutam para adiar esse
destino inevitável o máximo possível.
Mas
este horror cósmico não foi a única influência de Lovecraft na
cultura pop atual. O autor colaborava para uma revista pulp de
terror/horror e, em vida, permitiu que os demais autores da revista
usassem seus personagens e cenários. Ou seja, Lovecraft criou o
primeiro universo ficcional compartilhado por autores e personagens
da história. Isso antes dos super-heróis que ainda surgiriam.
Não
se tratava apenas de vários personagens de histórias distintas que
se encontravam. Agora, autores diferentes produziram histórias com
um mesmo núcleo de personagens e cenários ampliando a obra de
Lovecraft com a autorização do mesmo. Isso foi e é a base para os
universos de super-heróis das gigantes DC e Marvel, bem como da
narrativa compartilhada dos jogos de RPG de mesa.
Assim
sendo, temos: a obra de Lovecraft propriamente dita, os textos
escritos por ele; a obra dos autores que usaram o universo de
Lovecraft com a autorização dele em vida; os autores que deram (e
dão) continuidade ao universo de Lovecraft; autores de outras mídias
que adaptaram a obra de Lovecraft (sobretudo para cinema, quadrinhos
e jogos); autores que até usam o material de Lovecraft, mas com
interpretações renovadas, releituras de fato, como é o caso de
Matt Ruff, Alan Moore e tantos outros; e autores que, mesmo não
usando nomes e cenários de Lovecraft, usam as ideias e conceitos
deixados por ele. Mas esse multiverso Lovecraft talvez vire assunto
para um próximo texto.
Voltando
ao foco deste texto e concluindo: vemos então duas formas diferentes
de publicação de um mesmo material. Dois livros diferentes com um
mesmo título, de um mesmo autor, mas com propostas editoriais bem
diferentes. “E qual é a melhor?”, você me pergunta. E eu
respondo, depende do que você, como leitor(a), quiser na hora de
experimentar Lovecraft pela primeira vez. Você quer uma edição
mais barata possível? Hedra. Você quer uma edição barata, mas
caprichada? L&PM. Você quer edições fáceis de achar em
bibliotecas? Ambas as editoras e muito mais. Você quer informações
para além do texto de ficção, uma contextualização maior? Hedra.
Você não quer se influenciar pela opinião do tradutor ou do
editor? L&PM. Você não está preparado para levar facadas no
coração? Hedra.
Fora
que Lovecraft está em domínio público, Hedra e L&PM não são
as únicas editoras que publicam este material, várias editoras
publicam ao mesmo tempo O Chamado de Cthulhu no Brasil e no mundo,
você pode verificar várias opções nas livrarias reais e virtuais
e até em bibliotecas públicas. Fora que, se você tiver uma boa
leitura em inglês, ou se você estiver aprendendo inglês, os textos
originais estão disponíveis gratuitamente na Internet, pois são de
domínio público. Ou seja, a Hedra e a L&PM são duas opções
num mar de possibilidades quando o assunto é a inicialização da
leitura de um(a) autor(a) caído(a) em domínio público, como é o
caso de Lovecraft, mas de muitos outros, tanto estrangeiros, quanto
brasileiros.
E
antes de terminar, se algum leitor quiser começar a ler Lovecraft
pela ordem original de publicação de seus contos, há uma lista na
Wikipedia, tanto em inglês
(https://en.wikipedia.org/wiki/H._P._Lovecraft_bibliography), quanto
em português
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_obras_de_H._P._Lovecraft).
Tendo em vista eventuais mudanças de traduções de títulos, talvez
o voluntário da versão em português tenha optado por manter os
títulos dos contos em inglês.
Boas
leituras, até breve!
Rodrigo
Rosas Campos